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Formação continuada docente: mas e os tais eventos online?

Retomando a discussão que já iniciamos aqui, repito a pergunta: está claro o que significa formação docente?


Formar um ser humano é a concepção mais ampla de Educação. Enquanto o termo ensino remete à transmissão vertical de conhecimentos, a educação é um processo mais amplo: trata-se de meios para assegurar a formação e o desenvolvimento de um ser humano.


A partir do momento em que reconhecemos que docentes também são seres em formação, fica clara a importância da formação continuada: nenhum curso de especialização, graduação ou pós-graduação poderia dar conta de tudo que abrange a tarefa docente.


Já sabemos que a formação continuada informal, sem embasamento teórico, acaba por reproduzir o senso comum. Mas e os cursos de formação continuada, que se proliferam cada vez mais rápido?


Certamente, muitos deles têm o seu valor. A questão é sabermos quais.


Pesquisas na área de formação docente apontam um discurso oportunista e demagógico nos cursos que visam à implantação de certos pacotes de habilidades, supostamente propiciadores de um maior grau de aptidão para seguir modelos predefinidos externamente.


Em outras palavras, existe o perigo de ficar sempre na dependência de cursos externos, que ensinam exatamente o que docentes devem fazer e como fazer. Essa postura evidencia a visão de profissionais da educação como pessoas capacitadas a aplicar técnicas, que, diante de cada novo desafio, recorrem a especialistas em busca de respostas.


Aí temos dois problemas: a desintelectualização docente e a despolitização da formação docente.


O primeiro desses problemas já foi discutido aqui, e o segundo, aqui. Resumindo: quem ensina se vê, cada vez mais, num beco sem saída, entre a falta de autoridade para tomar as próprias decisões e a falta de permissão para fazer mais do que transmitir conteúdos de forma mecânica.


Um terceiro problema de tais cursos, conforme apontado por Consaltér et al., é o investimento financeiro necessário: na prática, docentes sabem que estes cursos demandam gastos com deslocamento, alimentação e outros.


Bem, mas então, como avaliar a qualidade dos cursos de formação continuada?



A chave é lembrar do seguinte: não se produz conhecimento sem um forte embasamento teórico. A ausência da teoria é chamada por Consaltér et al. de "racionalidade técnica ou instrumental", e pode incorrer na reflexão que apenas reproduz o senso comum.


Em segundo lugar, porém, devemos nos questionar: em que sentido vai esse embasamento teórico? Ele serve para promover a reflexão e, consequentemente, a autonomia sobre a própria prática? Ou reproduz a ideia de que a produção de conhecimento vem de fora, sendo o nosso papel meramente aplicá-la?


Um curso ou evento de formação continuada bem elaborado traz um ganho que não pode ser mensurado em carga horária. Como qualquer processo educativo significativo, ele permite olhar para experiências passadas sob um novo ponto de vista, suscita novas ideias e esclarece dúvidas antigas.


O que se aprende em um bom curso de formação continuada não pode ser completamente aplicado em aula. É um aprendizado que modifica as crenças e se reflete na postura profissional de quem ensina. Aprendizes não conseguem enxergar seu resultado total: ele transparece não só nas práticas concretas de ensino, mas também em atitudes que educam verdadeiramente.


Afinal, a pergunta persiste: o objetivo da formação docente é desenvolver a autonomia profissional bem embasada, ou colecionar comprovantes de eventos de quatro horas de duração?


Sabemos que a educação nos moldes mercadológicos vem se impondo, e não só formando indivíduos para um tal "mercado de trabalho", mas também reproduzindo todos os padrões do mercado financeiro nos processos de ensino – a ponto de transformar escolas em empresas onde docentes ocupam um papel secundário.


Nessa lógica, quanto mais papéis que certifiquem a participação em quaisquer eventos, melhor. Quanto mais linhas no currículo, melhor. Quanto mais habilidades – ou seriam skills? – puderem ser comprovadas por escrito, melhor.


De qualquer forma, é imprescindível a postura da práxis pedagógica. Na práxis, teoria e prática se completam, de modo que a teoria não fique no plano das ideias desconectadas da realidade, nem a prática seja levada a cabo de forma meramente reprodutiva e acrítica.


Nas palavras de Consaltér et al., a formação continuada


não pode ser concebida apenas como um meio de acumulação de cursos, palestras, seminários, de conhecimentos ou técnicas. É preciso consolidar-se como um trabalho de reflexibilidade crítica sobre as práticas e de construção permanente de uma identidade pessoal e profissional em interação mútua.

Por isso, mais do que juntar certificados de cursos e palestras, busquemos dialogar com nossos pares: na escola, na rua, nas redes sociais.

Inspirado em:


CONSALTÉR, E.; FÁVERO, A. A.; TONIETO, C. A formação continuada de professores a partir de três perspectivas: o senso comum pedagógico, pacotes formativos e a práxis pedagógica. Educação Em Perspectiva, 10, p. 1-14, 2019. DOI: 10.22294/eduper/ppge/ufv.v10i.7121

Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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