Colonialidade linguística e língua materna

A colonialidade fez com que o povo brasileiro fosse sistematicamente destituído de direitos linguísticos. Hoje, só uma pequena parcela da população – a elite branca alinhada aos valores conservadores da colonialidade – detém o poder sobre a língua.


Isso fez com que a grande maioria do povo brasileiro internalizasse que não sabe língua! Quantas vezes a gente ouve dizer que “brasileiro não sabe direito nem a própria língua e quer aprender a língua dos outros”? Você certamente já ouviu isso.


Mas vamos pensar: por acaso é possível um indivíduo que cresceu se comunicando em uma determinada língua não saber essa língua?


É claro que não!


Essa postura vem de uma visão de língua e de conhecimento como um objeto, que alguns possuem e outros não.


Em outras palavras, trata-se de uma visão de língua como um produto – uma visão totalmente capitalista.


A partir do momento em que enxergamos a língua como prática social, esse conceito de saber ou não uma língua vai ficando mais tênue. Afinal, se a língua é uma prática social, ela não existe enquanto unidade isolada dos seus falantes, "do lado de fora".


Existem muitas concepções de língua que reconhecem a língua como prática social. Encontramos perspectivas importantes nesse sentido na Linguística Aplicada Crítica e na Teoria Sociocultural de Vygostky, por exemplo.


O entendimento de língua como unidade isolada, tanto dos indivíduos falantes como em relação a outras línguas, é uma invenção colonial!


Você já parou pra pensar nisso?


Estudos

A divisão entre línguas não é "natural", é inventada - por meio da invenção da gramática.


O que definia o latim como língua culta e seus vernáculos como línguas vulgares era o fato de o latim ter sido oficializado por uma gramática clara.



Enquanto isso, as línguas vernáculas não desfrutavam desse prestígio. Tempos depois, a primeira gramática da língua espanhola também teve como objetivo firmar um certo status da língua, a fim de oficializar por meio dela o domínio dos povos conquistados.


No Brasil, o ideário da língua isolada se consolidou por meio da violenta imposição do português em todo o território; do extermínio das línguas africanas que aqui chegaram, e do quase extermínio das línguas nativas; do não-reconhecimento de variedades menos elitizadas do chamado português brasileiro; e da progressiva retirada das línguas do currículo escolar.


Dessa forma, o povo brasileiro foi levado a crer que é monolíngue como parte do projeto colonial.


Essa ideologia perdura até hoje!


Porém, os mais recentes estágios da globalização, que levaram à popularização da internet, vêm deixando claro que a realidade é mais complexa do que esses delírios coloniais.


Cada vez mais se misturam palavras em inglês, por exemplo, ao nosso cotidiano – e nem sempre se trata de uma estratégia para demarcar classe social, para dizer “vejam, eu tenho acesso a esse conhecimento”.


Às vezes, sim, né? Mas essa não é a regra.


Acontece que existem conceitos que a gente aprende em outra língua, e que nos parece artificial traduzir. O que faz sentido é aquele termo, que surgiu naquele momento, dentro daquele contexto, e não importa a que língua o termo pertence. Não é isso que dá sentido a ele.


Globalizado

E aí, no momento em que a gente entende isso, fica claro que ninguém é monolíngue: porque todo mundo tem a capacidade de construir seus próprios repertórios, formados por recursos linguísticos verbais e não-verbais, conforme as suas práticas sociais.


Isso significa que ser bilíngue ou plurilíngue não é e não deveria ser sinônimo de usar os recursos pertencentes a mais de uma língua de forma isolada. Não faz sentido! Ser plurilíngue é conseguir se mover entre diversas formas de percepção e representação da realidade.


E para marcar essa compreensão da competência linguística humana como não restrita a saber esta ou aquela língua, existe um termo melhor do que plurilinguismo: translinguismo.


O termo translinguismo marca politicamente o reconhecimento de que as línguas, e os recursos linguísticos de modo geral, devem estar a serviço dos falantes – de todos os falantes, e não só da elite.


Por isso, assumir uma perspectiva translíngue significa defender o ser humano como sujeito de direitos!

 

Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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