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A colonialidade linguística e seus efeitos

Este é mais um texto para derrubar a falsa ideia de que ensino de línguas não se mistura com política!



Conforme já vimos aqui, a invenção da escrita constituiu a primeira revolução técnico-linguística. Já a gramatização, isto é, a padronização de línguas em sistemas, pode ser chamada de segunda revolução técnico-linguística.


A partir da gramatização, só as línguas que tinham uma gramática bem definida por escrito passaram a ser consideradas línguas.



Em outras palavras, somente a língua do imperialismo, ou melhor, de quem colonizava os demais povos, era considerada língua de verdade: todas as demais formas de expressão não estavam no mesmo patamar de "desenvolvimento" ou "civilidade".


Veronelli chama esse pressuposto de monolinguismo do colonizador, pois o paradigma colonizador é a monolíngua, isto é, a comunicação de mão única. Não o povo colonizador e os povos colonizados, já que as formas de expressão do povo colonizado não eram sequer consideradas línguas pelo povo colonizador.


Essas concepções refletem a premissa, mencionada anteriormente, de que a América e a África pré-coloniais eram como lousas em branco – e demonstra o quão violenta e desumanizadora é a colonialidade da língua.


Mas o que é que isso tudo tem a ver com a Educação Linguística de hoje?


Conforme lembra o professor Dante Lucchesi nesta live, havia mais de 1 milhão e meio de nativos no Brasil quando chegaram os colonizadores. Essas pessoas falavam mais de mil línguas!


Hoje, temos apenas um pálido reflexo disso: são faladas entre 160 e 180 línguas indígenas, sendo que a grande maioria delas está em sério risco de extinção, porque não são mais ensinadas às crianças.


Além disso, as mais de 4 milhões de pessoas trazidas da África para o Brasil teriam falado até 200 línguas – e não “dialetos”, como se costuma colocar hoje, em um movimento de preconceito colonial. Essas línguas também tiveram papel fundamental na constituição da nossa cultura, e foram faladas por mestiços até o século XIX!


Dois grandes exemplos são o iorubá, que foi língua corrente em Salvador, e o quimbundo, também relevante até hoje.


Claramente, foi necessário um violento processo de homogeneização linguística para que a influência do português europeu predominasse sobre a língua que se constituía no Brasil – bem como outros fatores culturais e religiosos vindos da Europa.


É por isso que se faz urgente reconhecer o brasileiro como língua, e não como mera variante do português, aquela língua falada no distante país de Portugal. A língua brasileira se constituiu a partir da miscigenação de muitas línguas e culturas, e por meio de muito confronto linguístico, que não pode ser apagado dessa forma.


Chamar a nossa língua de português, ou mesmo de português brasileiro, é reforçar os efeitos da violência que sofreram os diversos povos nativos e africanos que participaram da construção da nossa língua.


Insistir nessa ideia da monolíngua, que jamais existiu, significa reforçar que as línguas nativas e africanas não eram línguas. É embranquecer a nossa língua, em um esforço semelhante àquele de embranquecer o povo brasileiro. É o monolinguismo do colonizador.



De que nos serve continuar reproduzindo esse paradigma violento e alienante?


Inspirado em:


ANDREOTTI, Vanessa; MENEZES DE SOUZA, Lynn Mario Trindade. Through Other Eyes. Learning to read the world. Global Education, 2008.


GRILLI, Marina. Passado, presente e futuro do ensino de línguas no Brasil: métodos e políticas. Linguagens – Revista de Letras, Artes e Comunicação, v. 12, n. 3, 2018, pp. 415-435.


e neste episódio do podcast História Cabeluda, do qual participei.

Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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