Aula de conversação ou bate-papo?
- marina.grilli.s

- há 16 horas
- 4 min de leitura
Você sabe dar aulas de conversação, prof?
“Aula de conversação” não é bate-papo sobre amenidades do cotidiano.
Geralmente, as aulas de conversação em língua adicional são procuradas por três tipos de pessoas:
Quem está sem contato com a língua e não quer enferrujar de vez;
Quem está com viagem para o exterior marcada e quer melhorar a fluência antes de partir;
Quem tem pre-gui-ça de estudar e busca um jeito milagroso de aprender por osmose. (Pronto, falei!)
Acontece que ficar apenas conversando com o aluno sobre assuntos variados, e dar uma reforçadinha na gramática enquanto faz isso, não é a melhor forma de dar aula de conversação.
Além de se perguntar o que os seus alunos querem dizer, é necessário saber o que eles têm a dizer, e, acima disso, de onde vem aquilo que eles têm a dizer.

Porque despertar a consciência é papel crucial de quem trabalha com Educação Linguística. Apenas por meio da língua é que se pode colocar ideias no mundo, e construir um projeto de sociedade. E é por isso que se faz urgente descolonizar a educação e o ensino de língua.
Conversação de verdade é debate. É questionamento. É buscar a raiz de um problema banal, a ideologia por trás de um filme, o viés político de uma notícia. Descolonizar o olhar que normaliza situações de desconexão entre o que se vê em sala de aula e o que se vê na vida real.
A língua é prática social, e como absolutamente qualquer prática social, ela é política. Sem análise, questionamento, elaboração de ideias, debate… a língua não serve para nada. Nem a gramática avançada, nem o vocabulário específico, nem os tais objetivos comunicativos da aula.
Porque descolonizar não é teoria, não é poesia, não é palavra de ordem vazia. É construção política, Práxis pedagógica. É saber de onde vêm os nossos problemas para não buscar na fonte deles a solução, como se faz quando buscamos a solução para as dificuldades do aluno brasileiro na visão de mundo do falante estrangeiro.
Os professores de língua contemporâneos acabam, por vezes, agindo como colonizadores. Ao proibir a língua materna, ao reprimir erros típicos de quem aprende, ao insistir na pronúncia típica de um ou dois países ignorando todos os outros.
Ao ensinar como se todo aprendiz estivesse a ponto de viajar para o exterior, em um país onde 70% da população ganha até dois salários mínimos (dados de 2022).
É por isso que questões políticas não podem ficar de fora da aula de língua. Elas exercem influência direta sobre a forma como o povo brasileiro tem acesso às línguas e como as percebe: difíceis, elitistas, até mesmo inúteis. Faz sentido?
A solução não está no próximo método importado ou na mais nova certificação internacional. Fazer a diferença para o seu aluno é escutar o que ele tem a dizer. Dar voz a ele.
Agora, você já sabe o que eu vou dizer: tudo isso aí pode ser chamado de ensinar Além da Língua.

Porque enquanto ficarmos nessa prisão da gramática, do vocabulário e do objetivo comunicativo, a língua continuará distante da realidade do nosso aluno.
Para nos aproximarmos dele, o melhor jeito é ensinar conversação que funciona. Isso inclui:
usar o português como recurso na sala de aula
explorar também outras línguas em aula, mesmo que você não as domine
criar desafios de fala improvisada
e, se você quiser, manter um clube de conversação com alunos de vários níveis – que pode ser um diferencial da sua entrega, ou um serviço cobrado à parte.
Essas estratégias não servem apenas para facilitar a vida do seu aluno, algo que muita gente ainda vê com maus olhos... como se o ato de aprender devesse estar sempre associado a esforço pesado, sofrimento, dureza, insistência, disciplina, cansaço, resiliência. Toda essa coisa negativa e punitivista, que vem de uma ideia de Educação imposta pela colonização cristã (mas isso é papo para outros posts, como este e este). Pelo contrário: tornar o processo mais leve é torná-lo mais eficaz.
Mas as estratégias para ensinar conversação que funciona fazem mais do que isso: elas descortinam todo um mundo inexplorado pelo brasileiro que já teve qualquer experiência de aprendizagem de outra língua. Porque o ensino de línguas no nosso país é colonizado, ultrapassado, e monolíngue.
Porque nos ensinaram que "saber" uma língua é obter, como troféu máximo, a validação de um nativo da Europa ou dos EUA, na forma de um papel pelo qual se pagam centenas de dólares e algumas horas de exposição a testes com pouco ou nenhum espaço para experimentações com a língua.
Porque nos convenceram de que ser fluente é ser monolíngue, apagando a identidade linguística e cultural do falante. De que língua é objeto, posse, propriedade privada, em vez de prática, expressão direito humano.
Infelizmente, ainda não são muito populares as propostas de ensino de línguas adicionais que não coloquem o monolinguismo no centro da aprendizagem. Enquanto muito se discute sobre estar o alunno ou o professor nesse tal de "centro", a verdade é que a língua como objeto, quase que uma relíquia a ser venerada com devoção, segue ocupando mais espaço do que as vivências dos seres humanos envolvidos nos múltiplos processos que envolvem o ensino e a aprendizagem.
É por isso que uma proposta de Educação Linguística que contemple as necessidades do aprendiz brasileiro exige que olhemos para Além da Língua. Não basta agradar as exigências e aos ouvidos do outro, é preciso promover a emancipação linguística dos nossos. Não é olhar para fora, é para dentro.
É eliminar por completo a ideia de termos vergonha, não só do nosso sotaque brasileiro, mas da nossa língua materna, à qual recorremos sempre que sentimos necessidade e que sempre será um ponto de apoio em situações desafiadoras.
É saber que o outro, o interlocutor, mesmo que seja um "nativo" desses idealizados pelo delírio de superioridade dos países hegemônicos, também precisa fazer sua parte para que a situação comunicativa funcione... ou seja, que não cabe a nós, falantes do Sul Global, nos resignarmos a agradar aos parãmetros definidos por esse outro.

Se você concorda com essa ideia e quer saber mais sobre como ensinar conversação que funciona, na prática, com estratégias validadas por professores de várias línguas e de todo o Brasil, que funcionam para todos os níveis, é só clicar aqui. E lembrar, sempre, que reprimir a língua materna do aluno na aula de outra língua é reforçar a violência colonial.




