Por uma Educação Linguística decolonial
- marina.grilli.s

- 23 de jan.
- 2 min de leitura
Para o célebre geógrafo brasileiro Milton Santos, descolonizar é enxergar o mundo com os próprios olhos. Em termos de Educação Linguística, descolonizar é olhar para Além da Língua e enxergar o que a rodeia. Em outras palavras, qualquer proposta de Educação Linguística no Brasil precisa partir do pensamento decolonial.
Se você acompanha este blog ou o meu perfil no Instagram há algum tempo, já sabe que essa é a premissa básica da Escola Além da Língua: descolonizar o modo como as línguas de prestígio são ensinadas no Brasil.

Não dá pra falar em descolonizar sem questionar a separação entre línguas, culturas e interesses com base na localização geográfica ou na cor da pele.
Afinal, por mais que existam características típicas de cada povo – características que, inclusive, embasam políticas de resistência à dominação colonial –, culturas e línguas não são monoblocos.
É intrigante como algumas línguas detêm mais prestígio que outras, não é? A causa desse fenômeno está na colonização. Também foi a mentalidade colonial que determinou o que é língua e o que é dialeto, o que é linguagem formal ou informal, e que gíria é coisa de gente sem educação.
Porque a colonialidade determinou o que é conhecimento e o que não é. Assim como determinou quem é "gente" e quem não é.
Hoje, nos negarmos a aprender línguas de prestígio não é uma estratégia de resistência eficaz, pois quem se prejudica é somente quem não tem esse conhecimento. Mas podemos mudar nossa perspectiva: precisamos aprender línguas de prestígio, não para imitar os falantes nativos dessas línguas. E sim, para nos apropriarmos delas sem medo de nos expressarmos.
Esse é um primeiro passo para nós, que nos encontramos em posição subalterna, iniciarmos a derrubada dessa hierarquização de povos, culturas e línguas.
Um primeiro passo para negarmos a hierarquização das línguas, em uma atitude decolonial, é reconhecer que cada falante constrói seus próprios repertórios linguísticos. Que espaço têm esses repertórios, construídos a partir de experiências pessoais e únicas, na aula de outra língua? Quando o professor ou a escola insistem em métodos estanques que proíbem o uso da língua materna durante a aula, não há espaço algum para a expressão da individualidade, condição que nos torna humanos.
Que a gente supere qualquer medo ou vergonha de falar "a língua dos outros", porque língua não é objeto para ter dono, e porque a gente não precisa da aprovação de ninguém. Precisa só se comunicar.
E se a outra pessoa não estiver disposta a construir as condições para que a comunicação aconteça, esperando que nós não-nativos façamos todo o esforço... bem, quem perde é ela.
Uma proposta efetiva de educação linguística exige consciência do papel político que o aprendiz brasileiro ocupa nas hierarquia do poder mundial. Despertar essa consciência é a função principal da Educação Linguística. Porém, para cumpri-la com sucesso, é necessário olhar para Além da Língua. Eu sugiro fortemente que você comece por aqui.




