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Multi, pluri e seus problemas

Na Linguística Aplicada e na Educação Linguística, tem crescido o foco na pluralidade linguística, como forma de desafiar o monolinguismo imposto e a norma nativa.


Essa mudança de paradigma é chamada por Kubota de "virada multi-pluri".



A virada multi-pluri anda em paralelo com a teoria pós-colonial, na medida em que ambas problematizam a compreensão essencialista da linguagem e da identidade, apoiando a hibridez e a fluidez.


Porém, é necessário tecer certas críticas a esse novo paradigma, para que ele não se torne apenas mais uma imposição, mais uma norma... e mais um mecanismo de exclusão e de reprodução da desigualdade, contrariando tudo que defendemos na Linguística Aplicada e na Educação Linguística.


Em muitas partes do mundo, o conceito de plurilinguismo vem entrando em conflito com a dominância do inglês como primeira e única língua estrangeira a ser aprendida. Essa ideia é bem presente no Brasil, não é?


Porém, felizmente, a virada multilíngue está se consolidando como tendência: as pessoas vão percebendo que não faz sentido categorizar as mais diversas práticas linguísticas, nos mais diversos contextos, em termos de línguas faladas, como se essas línguas fossem unidades isoladas umas das outras.


Essa visão ultrapassada reproduz a divisão artificial de línguas como se fosse natural, numa demonstração explícita da colonialidade linguística. Pois é, as línguas não são armazenadas em separado – e é por isso que não faz sentido algum tentar excluir uma delas de qualquer uma das vivências de quem fala.


A virada multi-pluri, portanto, tem o potencial de representar uma espécie de retorno a um uso livre de recursos linguísticos. No entanto, à medida que essa virada se consolida, ela corre o risco de tornar-se apenas mais um termo do cânone, perdendo seu ímpeto de crítica das normas vigentes.


Isso acontece porque o modelo neoliberal acaba cooptando essa pluralidade de línguas e culturas, esvaziando-a de sentido crítico. Esse é um procedimento típico do sistema capitalista, que costuma transformar qualquer tentativa de derrotá-lo em mais um produto a seu favor!



No mesmo balaio do capitalismo neoliberal, vem outro conceito de nome longo: o cosmopolitanismo individual. Ele determina que cada indivíduo seja responsável pela própria integração ao mundo globalizado, a fim de poder desfrutar das vantagens dessa globalização.


É assim que o multiculturalismo neoliberal até incentiva o plurilinguismo, mas desde que o foco desse plurilinguismo seja a mobilidade socioeconômica – resumida na preocupação com o famigerado "mercado de trabalho". É assim que a pluralidade linguística vai perdendo seu ímpeto de crítica das normas vigentes e passa a se adaptar a elas, passivamente.


O resultado disso, nós já conhecemos: esse ensino de línguas sem vida, sem fluidez, excessivamente padronizado e por padrões vindos do exterior.


Então, as características da virada multi-pluri se fundem com o neoliberalismo e o multiculturalismo acrítico, que, supostamente, apoiam a diversidade, mas de forma vazia e individualista. O plurilinguismo e o multiculturalismo, em si, não são motivos para celebração.


Falando mais especificamente do contexto brasileiro, Puh observa que existe um certo consenso quanto a vivermos em um país plurilíngue, mas que, por outro lado, são poucos os cursos de línguas que não sejam as modernas ocidentais - ou, nas palavras de Mignolo, as seis línguas europeias da dominação: italiano, espanhol, português, francês, alemão e inglês.


No Brasil, qualquer língua que não esteja entre essas seis é considerada exótica, estranha, difícil demais de aprender, e até mesmo de pouca importância. A essa categoria de línguas "outras" estão relegadas até mesmo línguas que muito contribuíram para o nosso falar brasileiro contemporâneo, isto é, as indígenas e africanas.


Ou seja: aceita-se que a maior parte da população é resultado de mistura de raças e povos, mas nega-se a essa população o direito de conhecer as diversas raízes que a compõem! É assim que o multiculturalismo vem sendo usado para continuar reforçando políticas monolíticas.


Em resumo, existe muito pouca diferença entre a postura multi-pluri neoliberal e a conservadora. Se, no multi-pluri conservador, o português continua sendo considerado uma língua unificada e natural no Brasil, o neoliberal preconiza que toda a população goze de liberdades e direitos individuais perante o Estado.


Parece desolador: mesmo as iniciativas de fomento ao multiculturalismo e ao plurilinguismo têm trabalhado no sentido de homogeneizar populações. Como podemos combater essa realidade?


Um caminho possível é o multiculturalismo crítico, inspirado na pedagogia de Paulo Freire.


O objetivo principal do multiculturalismo crítico é estabelecer um diálogo entre todos os sujeitos envolvidos na formação linguística e cultural de uma sociedade, por meio de recursos para a conscientização dessa população.


Puh aponta que esse tipo de ação, que não individualiza a luta das minorias sociais nem as restringe a uma relação com aquilo que o Estado impõe, é quase inexistente na área de ensino de línguas.

Esse chamado reflete a urgência de superar o ensino de línguas ultrapassado, limitado à língua como sistema, sem criticidade, sem questionamento e reflexão... e partir em direção a uma verdadeira Educação Linguística!

Baseado em:


KUBOTA, Ryuko. The Multi/Plural Turn, Postcolonial Theory, and Neoliberal Multiculturalism: Complicities and Implications for Applied Linguistics. Applied Linguistics, 2014, pp. 1-22. DOI: https://doi.org/10.1093/applin/amu045.


MIGNOLO, Walter. The Darker Side of Western Modernity. Global Futures, Decolonial Options. Durham/London: Duke University Press, 2011.


PUH, Milan. “Tudo junto e misturado?”: as contribuições e os limites do multiculturalismo no ensino de línguas. El toldo de Astier, v. 11, n. 20-21, 2020, pp. 415-432.


Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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