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Educação Linguística, PISA e fake news

Os benefícios do letramento crítico vêm se popularizando, ainda que lentamente e muitas vezes restritos a determinadas classes sociais.


Já falamos dessa concepção de letramento aqui, mas, em resumo, trata-se de um ensino para o uso e a apreciação da língua em relação ao ambiente social em que essa apreciação e uso acontecem – a mesma premissa da Educação Linguística como um todo.


Um parênteses: em vez de letramento, há quem defenda o uso do termo literacia, mais próximo ao termo correspondente em inglês literacy. Isso ocorre porque o sufixo -mento está mais próximo de remeter a um processo; assim, após passar pelo processo do letramento, o indivíduo atinge a condição de literacia.


A professora belga Régine Kolinsky, ao falar em literacia enquanto condição pessoal, menciona diversos exemplos da influência que essa condição traz sobre as mais diversas capacidades mentais, perceptivas e cognitivas humanas.


A memória verbal auditiva, por exemplo, é muito mais fraca em pessoas adultas iletradas e subletradas – também chamados analfabetas e analfabetas funcionais, respectivamente – do que nas letradas.


Pessoas letradas também estão acostumadas a estruturas sintáticas diferentes daquelas das iletradas, porque o discurso escrito é diferente do oral: na escrita, a coesão é estabelecida por meio de estruturas sintáticas complexas, nas quais os conectivos evidenciam as relações entre proposições. A linguagem oral, pelo contrário, é aditiva e agregativa.


Ou seja: pessoas iletradas, mesmo que adultas, apresentam dificuldade na compreensão de frases faladas mais complexas, pois sua compreensão é baseada na ordem e na linearidade dos termos.


A aquisição da leitura e, de modo geral, a educação formal, aumentam e diversificam o banco de dados de conhecimento do indivíduo. Isso porque, para além da compreensão básica na leitura, quem lê pode relacionar as ideias veiculadas pelo texto escrito aos conhecimentos prévios que já teve a oportunidade de acumular (sim, os repertórios!)


Em resumo, a literacia está relacionada à qualidade e à profundidade do pensamento crítico.


Um dos instrumentos que medem a literacia, enquanto capacidade de reflexão crítica no processamento da informação escrita, é a prova internacional PISA.


Segundo o PISA 2018, 23% da média dos alunos em países da OCDE obtiveram desempenho de nível 2 na prova de leitura, em uma escala de 1 a 5. Essa categoria caracteriza indivíduos subletrados, isto é, aqueles que são capazes de localizar trechos de informação em um texto, mas têm dificuldades para compreender mais do que seu sentido literal.


A título de comparação, o nível 4 na escala do PISA se caracteriza pela capacidade de quem lê de compreender o sentido de um texto relativamente longo e relacioná-lo aos seus conhecimentos, de maneira a formular hipóteses a respeito dele e avaliá-lo de maneira crítica. Já o nível 5 exige compreensão aprofundada, avaliação da coerência entre várias afirmações e reflexão crítica face à informação escrita.


O nível 4 foi atingido por 28% dos participantes da prova no ano de 2018; o nível 5, por apenas 9%.

Os números do Brasil, longe de impressionar aqueles que acompanham a situação das políticas públicas para a educação em nosso país, apenas nos envergonham: somente 1,5% de quem participou da prova em 2018 atingiu o nível 5 em leitura. 9% atingiram o nível 4, e a esmagadora maioria, 73%, permanece no nível 2.


Isso significa que 73% da população brasileira da faixa dos 15 anos de idade é subletrada, ou analfabeta funcional.


Mas se o PISA mede a capacidade de reflexão crítica sobre o que se lê, em consonância com as demais experiências já vividas por quem lê, é necessário compreendermos bem o que é reflexão crítica.


Uma definição possível de pensamento crítico é o julgamento proposital, que articula conhecimentos, experiências e competências. Ele também implica no raciocínio lógico e nas funções executivas que incluem comportamentos como tomada de decisão, planejamento e execução.


Bem, se o nível de literacia está diretamente relacionado à capacidade de pensamento crítico, e o pensamento crítico sustenta a capacidade de autodefesa intelectual, também não nos surpreende mais do que nos envergonha a facilidade com que o povo brasileiro é manipulado por fake news, teorias da conspiração e outras manobras de desvirtuação dos fatos ou de propaganda mentirosa...


Neste vídeo, Kolinsky menciona uma série de estudos que demonstram relação direta entre os resultados de um teste de pensamento crítico e os hábitos de leitura de quem participa dos teste.


A novidade é: não só a literacia como um todo, mas também a literacia de mídia [media literacy], especificamente, tem uma correlação significativa com a capacidade de pensamento.


Literacia de mídia é a capacidade de entender e analisar diversos gêneros de mensagens veiculadas na mídia. E quanto maior a pontuação dos participantes no teste de literacia de mídia, maior a capacidade de pensamento crítico, e menor a quantidade de traços de personalidade autoritária, medidos por meio de outro teste.


Soa familiar, não? É realmente fácil relacionar esses resultados de pesquisa com a realidade brasileira, principalmente desde a eleição presidencial de 2018.



Observando o descrédito da ciência e das universidades públicas no país, compreendemos que a falta de pensamento crítico se estende massivamente entre a população adulta do nosso país.



O fato de que a memória verbal auditiva é fraca em adultos subletrados dá um sentido bem macabro ao dito “brasileiro tem memória curta”!


Note-se que a descrição do nível 2 em leitura do PISA afirma que tais indivíduos não possuem o nível de competência necessário para lidar com exigências complexas do trabalho. Resta, portanto, a essa esmagadora maioria de brasileiros, o trabalho mecânico, não qualificado, não intelectual.


Aí está o efeito inevitável do sucateamento sistemático da educação pública brasileira. Como mudar essa realidade, se as pessoas mais prejudicadas são justamente aquelas que não desenvolveram o pensamento crítico?


Como mudar essa realidade, se as autoridades com poder para fazê-lo foram eleitas a partir de fake news?

Baseado em:


KOLINSKY, Régine. A literacia e seus desafios: promover o pensamento crítico em pessoas subletradas. Publicado pelo canal Abralin. Disponível em: https://youtu.be/VQ4iEkGG3-4



Inspirado em:


GRILLI, Marina. Combatendo fake news: o papel da literacia no pensamento crítico. Revista da ABRALIN, v. 19, n. 2, 2020, pp. 1-5. DOI: https://doi.org/10.25189/rabralin.v19i2.1454



Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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