Educação Linguística: por onde começar?

Se você chegou até este texto, provavelmente já sabe o que é Educação Linguística: uma abordagem do ensino de língua que leva em consideração as relações de poder que permeiam a língua como prática social, e que reconhece a necessidade de trazer para a aula de língua a realidade de quem aprende essa língua no Brasil.


Mas e agora? Como é que a gente coloca tudo isso em prática?


Eu sempre comento com quem aprende comigo que a missão de construir a cultura da Educação Linguística no Brasil é um tanto quanto árdua.



Porque vivemos em um país de herança colonial forte demais. Porque, assim como outros direitos humanos, os direitos linguísticos não são garantidos ao povo brasileiro, e sim, apenas a um pequeno grupo de pessoas privilegiadas.


E porque a educação por aqui é muito sucateada, fazendo com que professores muitas vezes não disponham de tempo ou energia para buscar atualização constante.


Devido a todo esse histórico, um ensino de línguas voltado para as necessidades reais do povo brasileiro, e não para se submeter a diretrizes enlatadas da Europa ou Estados Unidos, ainda é uma proposta considerada muito inovadora.


A boa notícia é que existe muito, mas muito campo de exploração para quem quer abandonar o ensino de línguas colonizado e colonizador, passando a atuar em prol da Educação Linguística!


Educação Linguística é qualquer proposta de ensino de língua que esteja preocupada em superar:

  • os materiais e métodos elaborados sob a perspectiva colonizadora,

  • o ensino focado em conhecer e se comunicar com falantes que nasceram nos países hegemônicos,

  • a orientação monolíngue, que desconsidera e/ou reprime o convívio de outras línguas no espaço de aula,

  • a preocupação com os níveis do Quadro Comum Europeu acima do desenvolvimento da livre expressão de quem aprende.


Transgredir o conservadorismo na língua e na educação é um princípio inegociável na construção de uma verdadeira Educação Linguística. A partir daí, podemos começar a planejar um jeito de ensinar que gere interesse em quem quer aprender, sem se fechar em uma caixinha desconectada da realidade.


Sabemos que existe muita gente que se desenvolve na nova língua apesar dos padrões de ensino coloniais, não é? O problema é que essa porcentagem de aprendizes do Brasil que têm sucesso em uma língua de prestígio é baixa demais.


O único jeito de mudar isso é voltar os nossos olhares para essas pessoas que estão lutando tão arduamente para aprender uma nova língua, trazendo consigo não só dificuldades e bloqueios, mas toda uma complexa história de vida - que pode e deve, sim, ser usada para facilitar a aprendizagem, e não para torná-la ainda mais difícil!


Somente ao reconhecer aprendizes em toda a sua complexidade de seres humanos nós seremos capazes de fomentar a consciência crítica sobre o uso da língua, e sobre o papel que a língua representa nas estruturas sociais.


Não é difícil pensar em exemplos de como fazer isso:

  • ensinar gramática de maneira contextualizada, chamando atenção para as possíveis falhas de interpretação que o mau emprego de certos termos pode gerar;

  • incentivar e celebrar a expressão na nova língua a todo momento, sem colocar a correção gramatical em primeiro plano;

  • fomentar a reflexão crítica sobre as representações de casa, trabalho, família e papéis de gênero nos materiais didáticos, sobretudo os importados.


Essas ideias iniciais servem como guia para compararmos as nossas crenças em uma Educação Linguística para o século XXI e as nossas práticas, muitas vezes ainda presas a parâmetros ineficazes.


Afinal, como é que vamos educar linguisticamente para o pensamento crítico, se não soubermos pensar criticamente?


 

Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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