Políticas para combater o preconceito linguístico

Há alguns dias, fiz um post sobre a língua como prática social no LinkedIn - corajosa, eu sei... tive muito medo de ser infectada pela moda da fanfic e pela trend de botar words in English no meio de qualquer sentence.


À parte dos comentários de gente preconceituosa que não dispõe de qualquer conhecimento em linguística ou em ciências sociais, mas adoram importunar com sua "opinião" quem trabalha com isso, recebi alguns comentários interessantes. Um deles consistia na pergunta: qual política pública no Brasil poderia mudar essa situação?


Explico: "essa situação" é, justamente, o preconceito linguístico. Geralmente se entende por preconceito linguístico somente a ridicularização da pronúncia de regiões do Brasil consideradas de menor prestígio, como o falar caipira, nordestino, da periferia paulistana ou do subúrbio carioca.


Mas embora essa seja, sim, uma dimensão do preconceito linguístico, ele é mais complexo do que isso. O menosprezo por outros modos de usar a língua brasileira é apenas um sintoma do verdadeiro problema: a percepção de que só algumas pessoas têm direito à língua.


Acreditar que só a tal norma culta deveria ser aceita nas escolas é preconceito linguístico.


Defender livros escritos por homens brancos no século XIX como "naturalmente" superiores a gêneros mais populares é preconceito linguístico.


Atacar propostas como a linguagem neutra de gênero é o suprassumo do preconceito linguístico - e aqui fica claro que não é possível separar a língua de outros processos sociais, pois o preconceito linguístico deixa explícito outros tipos de preconceito.


Sendo assim, precisei de alguns dias para elaborar uma resposta sucinta à pergunta sobre as políticas públicas que teriam o potencial de transformar essa situação tão desfavorável. Pra quem acha difícil resumir o pensamento nas usuais 25 páginas de um artigo científico, um comentário no LinkedIn é um enorme desafio!


Tanto que não consegui e precisei de dois comentários para isso. Mas achei válido trazer a reflexão para cá.


A verdade é que, mesmo simplificando o jeito de abordar esse assunto, não dá pra não dizer que uma educação libertadora, conforme o pensamento de Paulo Freire, é o único caminho que nos mostrará uma luz no fim do túnel.



A complexidade do problema exige políticas públicas pautadas em princípios decoloniais e emancipadores, para que tenhamos chance de mudar essa situação no médio prazo.


É preciso redirecionar os recursos públicos para o público, de fato, em vez de financiar parcerias com instituições privadas que tratam a educação como mercadoria e alienam o povo cada vez mais de seus direitos.


É preciso investir nas universidades públicas que formarão professores, melhorando sua infraestrutura e realizando concursos para docentes com salário atualizado, em vez de fomentar as instituições privadas que praticamente vendem diplomas.


É preciso garantir a entrada da população jovem nessas universidades, por meio da ampliação de vagas e de ações que lhes permitam ter tempo e condições para estudar, em vez de trabalhar 16 horas por dia para aplicativos de entregas que só enriquecem ainda mais seus donos bilionários.


É preciso reformar a carreira dos professores das escolas públicas, garantindo-lhes um salário digno, de modo a atrair talentos para a profissão - e reformar também a infraestrutura das escolas públicas.


Em suma, é preciso que a educação se volte para o ser humano e sua maravilhosa capacidade de organizar-se em comunidades, em vez de acirrar o individualismo preparando as pessoas para a cruel competição mercadológica que nos afasta dos nossos próprios interesses.


Faz sentido?


É assim que percebemos como não é possível falar de língua para o povo sem pensar em todas essas questões, que são intermediadas pela língua. A língua é uma prática social! E dissociá-la das práticas sociais é parte do projeto de alienação do sujeito em nome do capitalismo.

 

Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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