Currículo Lattes e resistência contra o obscurantismo

Hoje completam-se dois anos de pandemia "oficializada" no Brasil. E a cada momento surge uma nova notícia demonstrando o negacionismo científico dos nossos anti-governantes: a última é o fim da obrigatoriedade de usar máscaras em ambientes fechados, que vale para diversos estados brasileiros.


Essa conversa de desprezo à ciência me fez lembrar do apagão da plataforma Lattes, que aconteceu no final de julho de 2021, dando um enorme susto na comunidade acadêmica. Decidi abrir essa nova "temporada" do blog trazendo para cá esse assunto.


Caso você não saiba: devido a uma falha grave nos servidores do CNPq, o currículo Lattes passou alguns dias fora do ar. Mas talvez as pessoas que não trabalham com pesquisa científica não tenham entendido muito bem a razão do pânico, e este texto vai mudar isso.


CNPq é a sigla para Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, uma fundação pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.


Pesquisa científica

Suas principais atribuições, segundo o site oficial do órgão, são:


  • fomentar a pesquisa científica, tecnológica e de inovação;

  • promover a formação de recursos humanos qualificados para a pesquisa em todas as áreas do conhecimento.


O CNPq oferece a possibilidade de que qualquer pessoa cadastre seu currículo na plataforma Lattes, que tem esse nome em homenagem ao pesquisador Cesare Lattes.


A plataforma, novamente segundo o site oficial do governo, é a base curricular para análise e concessão de benefícios ou bolsas de fomento à ciência, tecnologia e inovação aos usuários (estudantes e pesquisadores) que pleiteiam apoio dos órgãos de fomento a Ciência, Tecnologia e Inovação.


Portanto, o currículo Lattes é um documento que reúne dados de toda a trajetória de quem pesquisa. Ele é gerado a partir do CPF da pessoa, e quem se cadastra garante que todas as informações lá inseridas são verídicas e passíveis de comprovação.


Sobretudo numa época de revisionismo histórico extremado, como essa que estamos vivendo sob a tirania de Bolsonaro e seus asseclas, documentar trajetórias de produção de conhecimento é documentar a História e combater o revisionismo negacionista.


Estudantes protestando

É por isso que as reações ao tal apagão do CNPq foram de revolta e desespero: não bastassem os incêndios no Museu da Língua Portuguesa em dezembro de 2015 e no Museu Nacional em setembro de 2018, além do incêndio na Cinemateca na semana seguinte ao apagão do CNPq, a ausência de recursos para modernizar os servidores do órgão é mais um indício do projeto de extermínio da cultura e da educação no Brasil.


Infelizmente, esse é um projeto de longo prazo em um país que, socioeconomicamente, nunca deixou de ser colônia.


Porém, mesmo depois de entender a importância de uma plataforma como o currículo Lattes, ainda persistem alguns mitos que são capazes de gerar receio sobre como organizá-lo.


O primeiro deles é a crença em que ter um currículo Lattes não é necessário nem importante para quem não está participando de nenhum processo seletivo de pós-graduação ou concorrendo a uma bolsa. Isso é mentira porque, mesmo que ele não seja obrigatório, o registro é fundamental para documentar a resistência ao negacionismo científico, como discutimos acima.


A elaboração do currículo também envolve um processo de entender-se como agente de produção de conhecimento, em vez de permanecer numa postura passiva de consumo do conhecimento vindo de cima para baixo, de maneira acrítica.


Um segundo mito envolvendo o currículo Lattes é o de que ele deve ser atualizado uma vez por ano, ou a cada semestre. Inclusive, muita gente que pensou ter perdido o Lattes durante o apagão do CNPq ficou aliviada ao saber que ainda existia uma versão salva cerca de um ano antes, no site Escavador, que coleta os dados do Lattes de forma automática. Mas, não, não é assim que funciona!


O melhor é inserir imediatamente no Lattes as informações de cada palestra assistida ou curso concluído – de preferência, no mesmo dia em que você receber o certificado, pessoalmente ou por e-mail.


Isso evita que se percam informações ao longo do tempo, pois das duas, uma:

  • ou você vai acabar se esquecendo de cada detalhe do que já fez, deixando o seu currículo incompleto e apagando a sua própria história (!),

  • ou vai se acostumar a não participar de eventos, palestras, debates e congressos porque se acostumou a não ver o Lattes crescendo, e essas experiências certamente farão falta na sua formação.


Chegamos assim ao terceiro mito sobre o Lattes, talvez o mais comum: o pensamento de que "não preciso fazer meu currículo, pois nem tenho o que colocar lá".


Pesquisador

Tem, sim!


Sabe aqueles eventos que ocorrem no horário da aula de alguma disciplina, e a professora contabiliza presença?


Peça um certificado simples e cadastre no Lattes.


Participação em palestras e semanas temáticas? Tem espaço pra elas no Lattes.


Se você fizer parte da comissão organizadora de algum desses eventos, não deixe de colocar no Lattes!


Sobretudo para quem cursa uma Licenciatura e acumula horas de Atividades Acadêmico-Científico-Culturais, não faltam oportunidades para rechear o currículo Lattes.


Claro que também é fundamental manter os certificados de todas essas experiências formativas muito bem organizados na nuvem, de preferência em ordem cronológica. Quem quiser também pode manter uma pasta com cópias físicas de todos os certificados – aí está um caso em que vale muito a pena pagar pela impressão colorida, não é?


Em resumo, não é só com pressão online a parlamentares e atos de rua que se resiste ao desmonte da Educação, da Cultura e da Ciência no Brasil – embora essas estratégias sejam de extrema importância.


Entender-se a si mesmo como agente do conhecimento, na conjuntura brasileira do século XXI, após o golpe de 2016 e em plena era digital do neoliberalismo e da uberização, também significa resistir às implicações obscurantistas dessa conjuntura.


Mas é preciso documentar a resistência.

 

Adaptado do texto "Lattes: apagão e resistência", publicado na 8ª edição da Revista Futuro do Pretérito (novembro/2021), disponível em: http://www4.fe.usp.br/wp-content/uploads/8arevista-futuro-do-preterito-feusp.pdf.

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