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Ensinando plurilinguismo na prática

  • Foto do escritor: marina.grilli.s
    marina.grilli.s
  • 5 de fev. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 23 de jan.

Depois de algumas semanas refletindo sobre a colonialidade na língua, vamos nos voltar para uma questão prática do ensino?


Alguns anos atrás, durante a minha pesquisa de doutorado, realizei quatro sessões de uma oficina interativa com professores de alemão, nas quais apresentei algumas situações típicas pelas quais passa quem ensina língua para o público brasileiro.


estudando língua estrangeira
Desafios de aprender e ensinar online

Uma delas foi enunciada da seguinte forma: alguém entra em contato com você e começa a fazer aulas particulares de alemão. Poucas semanas depois, ela comenta que também está fazendo aulas de espanhol. Então, você nota que o rendimento começa a cair: as tarefas de casa já não têm a mesma qualidade, o interesse nas aulas parece ter diminuído. O que você faz?


Naturalmente, a pergunta se aplica a qualquer outro par de línguas adicionais que alguém decida aprender, e o dilema se aplica a quem ensina qualquer língua de prestígio no Brasil. Porque o ponto principal nessa proposta reflexão é a forma como naturalizamos o monolinguismo.


Em todas as edições dessa oficina que realizei, ao menos um participante mencionou que pode ser muito desafiador cursar duas línguas adicionais ao mesmo tempo. Alguns brincaram que se sentiriam frustrados e com certo “ciúme” da professora de espanhol... algo que poderia ser interpretado como produto óbvio da mentalidade monolíngue, né?


Esses comentários levaram a uma reflexão em grupo acerca do modelo tradicional de ensino-aprendizagem: uma obrigação a ser desempenhada com exclusividade, em um espaço separado e livre de interferências de quaisquer outros interesses do aprendiz e aspectos de sua vida. No máximo, pode haver espaço para comentários superficiais sobre o cotidiano do aluno durante a aula, mas ao tratar-se de outra língua, a barreira parece intransponível.


Um ponto positivo da oficina: em sua maioria, os professores participantes pareceram não menosprezar os obstáculos que podem advir do estudo do espanhol, apesar de o senso comum afirmar que aprender espanhol é fácil demais para brasileiros. Foi uma postura conforme o esperado de educadores linguísticos profissionais.


Infelizmente, o sistema de ensino brasileiro ainda está muito preso a parâmetros de homogeneização e padronização dos aprendizes. Segundo Ana Paula Duboc (2015, p. 668), trata-se de um modelo positivista de educação, “que ‘transmite’ uma verdade universal e acabada a um sujeito que a recebe de maneira diretiva e que a devolve a contento de modelos previamente determinados pela instituição escolar”. Se os professores que participaram da oficina em questão parecem ter se desvencilhado dessa mentalidade, ainda que só um pouquinho, já temos uma vitória! Será que esse também é o seu caso?


Além disso, participantes de todas as sessões da oficina observaram que o aprendiz em questão pode se sentir desmotivado ao perceber uma evolução muito mais lenta no curso de alemão do que no curso de espanhol.


Como solução para o dilema, enquanto alguns participantes da oficina propuseram uma conversa franca com o aluno em questão, redefinindo seus objetivos com o aprendizado do alemão e a carga horária de dedicação esperada. Outros sugeriram que as aulas de alemão retomassem os temas trabalhados nas aulas de espanhol, a fim de manter o interesse da aluna.


O ponto-chave aqui é não tratar o contato com várias línguas como um problema, e sim, como um fato comum – e que deveria, inclusive, ser ainda mais comum. Não vamos nos esquecer de que o monolinguismo foi inventado artificialmente pelos europeus como parte do projeto de colonização, tornando mais fácil a imposição de suas línguas aos povos subalternizados.


Nesse sentido, as melhores sugestões dos participantes da oficina envolveram elaborar listas comparativas de palavras e expressões em alemão e espanhol, e contar à professora de alemão o que está sendo aprendido na aula de espanhol. Muitos professores não dão a devida importância isso, mas falar sobre uma língua em outra língua é uma tarefa especialmente desafiadora! Um modo excelente de fomentar a competência plurilíngue.


Também é possível trazer curiosidades sobre países de língua espanhola na aula de alemão, e até mesmo entrar em contato com a professora de espanhol para sugerir que esse tipo de troca seja sistematizado. Mais uma questão para pensar, prof: alguma vez você já pensou em trabalhar aspectos culturais de outros países onde a língua que você ensina não é oficial?


Porque não basta mencionar comunidades de falantes que se aglomeraram fora dos países hegemônicos. Se queremos que o nosso aluno brasileiro se torne capaz de compreender a fluência em outra língua como um direito, é mais do que necessário apresentar a ele exemplos de falantes não-nativos, e conversar com ele sobre assuntos que não girem em torno de dois ou três países.


No fundo, a verdadeia pergunta é: você está preparada para formar um aluno plurilíngue?


Se a vontade é grande, mas ainda faltam ferramentas práticas que tornem essa missão viável, comece por aqui.


aula de língua estrangeira
Plurilinguismo sempre


Baseado em:


GRILLI, Marina. A práxis pedagógica no ensino de alemão: reflexões formativas. Revista Projekt, n. 60, 2021, pp. 22-30.



Inspirado em:


DUBOC, Ana Paula Martinez. Avaliação da aprendizagem de língua e os multiletramentos. Estudos em Avaliação Educacional, v. 26, n. 63, 2015, pp. 664-687.

 
 
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