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Causas e efeitos

Atualizado: 25 de mai. de 2023

É interessante como trabalhar com pesquisa na área da Educação é um caminho sem volta, sabe? Felizmente, depois que terminei o doutorado, tenho conseguido me aprofundar em leituras mais diversificadas sobre questões sociais complexas.


E, como não poderia deixar de ser, sempre procuro relacionar tudo à questão linguística, pois a língua não só permeia as práticas sociais, como as constrói.


Um dos livros que estou lendo se chama Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política (1). Ainda estou na metade da leitura, mas já consegui ter vários insights sobre como a problemática do capitalismo de dados disfarçado de "apolítico" tem a ver com a maneira como enxergamos questões linguísticas também.


Evgeny Morozov, o autor do livro, explica que uma característica da modernidade é a seguinte transformação na ideia de governo nos anos recentes: passou-se a partir da lógica de que "governar as causas é difícil e caro, então é mais seguro tentar governar os efeitos".


Porque "as causas exigem ser conhecidas, enquanto os efeitos podem ser verificados e controlados". Esse argumento é de autoria do filósofo italiano Giorgio Agamben (MOROZOV, 2018, p. 89).


A exaltação da disrupção e da eficiência associadas ao controle que as grandes empresas detêm sobre os dados pessoais dos cidadãos não condizem com o regime democrático, na medida em que têm sido usadas como instrumento de controle: o direito de não compartilhar informações particulares vai deixando de existir.


Penso que a tomada de decisões sobre o que fazer com os dados por empresas infiltradas no Estado tem muito a ver com o modo como tratamos a língua.


Ora, se não é possível controlar as intrincadas práticas sociais que determinam o caráter impermanente da língua, tenta-se (2) controlar os efeitos por meio da repressão às mudanças linguísticas.


Sobretudo em um país de profundas raízes coloniais como o Brasil, o controle da liberdade da expressão da população - que não tem e nunca teve a ver com o direito de propagar discurso de ódio ou de não sofrer as consequências de seus atos - serve aos interesses das elites.


A elite de uma nação submissa ao Norte Global, isto é, aos países hegemônicos da Europa e aos EUA, reforça a colonialidade e trabalha contra os interesses das massas do próprio país. E são as massas, que estão na base da pirâmide social, as responsáveis por iniciar processos de mudança linguística muito antes de estes serem consolidados nos livros de gramática, ou, por vezes, desaparecerem.


Porém, se as causas dos fenômenos sociais precisam ser conhecidas, enquanto os efeitos podem ser mantidos sob controle, é mais fácil marginalizar as mudanças e colocar todos os esforços em uma associação falsa entre a língua "suja" do povo brasileiro e a pretensa superioridade intelectual e cultural do colonizador, consolidada e imortalizada em uma língua que parou no passado.


Como se ainda falássemos ou escrevêssemos qualquer coisa parecida com "a língua de Camões"... chega a ser cômico.


Ou melhor, seria cômico se não fosse trágico. Se a população brasileira não vivesse submissa aos mais diversos parâmetros linguísticos repressores há séculos. Se relevância desproporcional conferida à norma culta não fosse usada como pretexto para desqualificar o conteúdo do discurso de setores inteiros da população. Se não houvesse a crença comum em que "brasileiro não sabe direito nem a própria língua, pra que aprender outras?".


É assim que, devidamente revestida (3) de uma fantasia despolitizadora, o controle dos efeitos de fenômenos sociais adquire ares de ordem e progresso, enquanto as causas são deliberadamente tornadas invisíveis. Assim como nos meios políticos, a ideologia capitalista infiltra-se na língua justamente ao negar-nos o acesso à sua dimensão ideológica.


Temos aí uma motivação clara para a demonização das Ciências Humanas e Sociais em tempos de obscurantismo neoliberal, certo?


Ficam aí algumas das minhas indagações mais frequentes, que inclusive fecham a minha tese de doutorado: por que não estamos discutindo questões relativas à língua nos espaços de construção de movimentos sociais dos diversos setores da esquerda?


Por que o livre acesso à expressão na própria língua e em outras línguas não figura nos direitos humanos básicos reivindicados para a população brasileira?


Por que a política linguística não aparece em nenhum dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU?


Porque as elites brasileiras submissas à hegemonia global, e nós, a base da pirâmide, parecemos estar de olhos fechados e braços cruzados diante desse fato?


Quão nefasto é, afinal, o poder da colonialidade linguística que nos trouxe a essa situação?


Temos que começar a pensar em respostas, prof.

 

(1) Se você tiver interesse em adquirir este livro na versão física ou na versão para Kindle, pode usar esses links que o oferecem com o valor mais acessível da Amazon e ainda revertem uma porcentagem para apoiar o trabalho que faço aqui no site.


(2) Segundo a engessada gramática normativa, o correto é "tentam-se", mas a gente sabe perfeitamente que essa tal voz passiva sintética não faz sentido. Até o Marcos Bagno já explicou que o pronome "se" é associado à função de sujeito apassivador, formando uma construção frasal típica do sujeito indeterminado. Então, se era falta de um vocabulário elitizado pra explicar um fenômeno básico que soa melhor a qualquer falante das massas, taí.


(3) Que tal abolirmos de vez o termo "travestida"? Travesti não é fantasia nem enganação.

 

Inspirado em:


MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu Editora, 2018.


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