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As três tendências da educação: para onde estamos indo?

Em tempos de insegurança em todas as áreas da vida, causada por uma pandemia sem precedentes, a educação não poderia ficar de fora: temos nos perguntado cada vez mais o que ensinar, e, sobretudo, como ensinar.


Esse assunto já virou motivo de cansaço mental, não é? E, mesmo assim, parecemos estar ainda longe das respostas!


Para renovarmos nossas forças na busca por uma luz no fim desse túnel, vamos falar um pouco mais sobre conhecimento e o papel da educação.


Michael Young (2008) distingue entre dois tipos de conhecimento.


O primeiro deles é o conhecimento dos poderosos, selecionado e validado pelo grupo dominante, considerado verdadeiro e legítimo.


O outro é o conhecimento poderoso, que se refere ao poder intelectual adquirido por aqueles que têm acesso a ele.


Ou seja: a reflexão sobre as intersecções entre conhecimento dos poderosos e conhecimento poderoso tem a ver com o papel que a educação ocupa na sociedade.


Para pensar nesse papel, é válido considerar as três tendências da educação, conforme definidas por Luckesi (1994): educação como reprodução, educação como redenção e educação como uma forma de transformação da sociedade.


A tendência reprodutora da educação considera a educação como um elemento da própria sociedade, isto é, determinada pelos condicionantes sociais, políticos e econômicos da sociedade em que se insere.


Uma das teorias que se enquadram nessa tendência é a de Althusser (1970), segundo a qual o sistema escolar é um dos aparelhos ideológicos do Estado, assim como igrejas, aparelhos culturais e órgãos de imprensa. Tais aparelhos ideológicos funcionam em complemento ao aparelho repressivo do Estado, a fim de garantir a reprodução de uma ideologia que, apesar das suas contradições e da sua diversidade, é a ideologia da classe dominante (ALTHUSSER, 1970, p. 48).



Já a tendência redentora da educação tem o objetivo de restabelecer a harmonia entre os membros da sociedade, fazendo os ajustes necessários para isso. Aqui, a educação funciona como princípio regulador dessa sociedade, como se a estivesse observando de fora. Seu objetivo é manter o estado relativamente harmônico das coisas como estão.


Para isso, a classe dominante, que detém o controle dos sistemas educacionais, emprega recursos para formar cidadãos eficientes para o trabalho. Assim, esses sujeitos adquirem uma falsa oportunidade de mobilidade social.


Daí o nome redenção: é como se o Estado, enquanto agente responsável pela educação, estivesse agindo com benevolência ao proporcionar às classes mais baixas chances de ascensão social por meio da instrução formal.


É claro que essa ilusão da educação redentora não resiste a uma análise superficial sobre como funciona a divisão da sociedade em classes. A existência de classes mais baixas é condição para a reprodução dessa mesma estrutura social! Portanto, não existe possibilidade real de redenção. Não basta estudar e esforçar-se para ascender às camadas mais altas...


Em resumo, há pouca diferença prática entre essas duas tendências.


Conforme explica Dermeval Saviani (1986), é necessário formular “uma teoria crítica, transformadora, [...] do ponto de vista dos interesses dos dominados, já que a classe dominante pretende apenas acionar mecanismos de adaptação que evitem a transformação”.


Por isso, a terceira tendência possível para a educação é a tendência transformadora: uma educação que não reproduza a pirâmide social como é, mas que trabalhe para derrubá-la!


Radical, não?


Para Saviani, a dificuldade em atingir esse estado na educação é resumida na seguinte questão: até que ponto as mudanças no sentido de uma transformação da sociedade pela educação, não são, na verdade, meras medidas redentoras, destinadas a manter os grupos subordinados satisfeitos em sua posição?


O que significa educar para uma transformação real da sociedade?


Como a educação pode parar de reproduzir desigualdades?

Baseado em:


ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. Notas para uma investigação. Trad. Joaquim José de Moura Ramos. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1970.


FOGAÇA, Francisco Carlos; GIMENEZ, Telma Nunes. O ensino de línguas estrangeiras e a sociedade. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 7, n. 1, 2007, 161-182.


LUCKESI, Cipriano C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez. 1994.


SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. São Paulo: Cortez Editora, 1986.


YOUNG, M. From Constructivism to Realism in the Sociology of the Curriculum. In: Review of Research in Education, 32, 2008, pp. 1-28.



Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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