As três tendências da educação: para onde estamos indo?
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As três tendências da educação: para onde estamos indo?

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    marina.grilli.s
  • 5 de mar. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Todo mundo já sabe que estamos vivendo tempos de incerteza por todo lado: no campo financeiro, climático, político, e assim por diante. Claro que a Educação, prática social por excelência, não passa ilesa... ou não deveria passar, né? Continuar ensinando como se fazia décadas atrás é, sem sombra de dúvida, um erro grave.


Segundo o autor Cipriano Luckesi (1994), existem três grandes tendências da educação: a tendência reprodutora, a tendência redentora e a tendência transformadora.


A tendência reprodutora parte da ideia de que a educação não está à margem da sociedade: ao contrário, ela é determinada pelas condições sociais, políticas e econômicas do tempo e do lugar em que está inserida. Uma das teorias que se enquadram nessa tendência é a de Althusser (1970), que aponta a escola como um dos aparelhos ideológicos do Estado, ao lado de instituições como as igrejas e os meios de comunicação.


Esses aparelhos ideológicos funcionam lado a lado com os aparelhos repressivos do Estado, como a polícia ou o sistema judiciário, mas com uma diferença: eles não impõem pela força, e sim pela ideologia. O objetivo? Manter viva a lógica de mundo da classe dominante. Mesmo com contradições e variações, é essa ideologia dominante que vai sendo reproduzida, e a escola tem papel-chave nesse processo (ALTHUSSER, 1970, p. 48).


É fácil relacionar a ideia de uma tendência reprodutora da Educação ao conceito de sociedade disciplinar de Foucault - o famoso "vigiar e punir". O bom funcionamento desse tipo de sociedade, e, portanto, da aprendizagem, se constrói pela obediência e pelo dever.


No ensino de línguas, a tendência reprodutora se verifica nos métodos focados na perfeição gramatical acima da capacidade de expressão do aluno - ainda muito em voga no Brasil, infelizmente. Mesmo que os professores digam o contrário, é isso que reproduzem durante a maior parte do tempo de suas aulas.


Mais do que isso, a tendência reprodutora foca em absorver as expressões idiomáticas, os estereótipos culturais e, principalmente, a pronúncia do "nativo". Existem inúmeras camadas de erros nessa postura, mas o que cabe reforçar aqui é: não está funcionando.



Redenção é tapar o sol com a peneira
Redenção é tapar o sol com a peneira

Já a tendência redentora busca suavizar o cenário. Ela coloca a educação como instrumento capaz de restaurar uma certa harmonia social, fazendo pequenos ajustes para manter o equilíbrio.


Aqui, a escola funciona como instituição reguladora, como se observasse a sociedade de fora, tentando consertar o que está desalinhado sem mudar a estrutura de base.


É nesse modelo que a educação é vendida como um caminho possível para a ascensão social. A classe dominante, que controla o sistema educacional, oferece recursos para formar trabalhadores eficientes e promete, em troca, a chance de “subir na vida”. Só que essa promessa é enganosa.


É aí que entra a ideia de redenção: o Estado parece estar oferecendo, de forma generosa, uma oportunidade de ascensão por meio do estudo, enquanto está apenas alimentando uma ilusão. Porque a verdade é que a estrutura social depende da existência das classes mais baixas para continuar funcionando como está.


Ou seja: não há redenção possível dentro do próprio sistema. Não basta estudar ou se esforçar para “vencer na vida”, se o sistema já está armado para impedir que isso aconteça para todos. Não existe solução dentro do problema.


É claro que essa ilusão da educação redentora não resiste a uma análise superficial sobre como funciona a divisão da sociedade em classes. A existência de classes mais baixas é condição para a reprodução dessa mesma estrutura social, e, portanto, não existe possibilidade real de redenção.


No fim das contas, a distância entre a tendência reprodutora e a redentora não é tão grande quanto parece. Em termos práticos, ambas mantêm o status quo: uma pela naturalização da estrutura, outra pela promessa de inclusão dentro dela. O foco ainda é receber a validação de quem detém o poder.


No ensino de línguas, a tendência redentora também quase não se diferencia da reprodutora. É central aqui o entendimento de que é possível um falante se tornar fluente apesar de não ser nativo. Apesar de manter no sotaque a marca de suas origens.


Apesar de não ter tido a oportunidade de vivenciar uma experiência no exterior que validasse não o seu conhecimento, mas o seu pertencimento a uma camada elitizada da sociedade: aquela que tem acesso a línguas de prestígio.


É assim que a tendencia redentora não soluciona o problema, e sim, faz parte dele.



Conforme explica Dermeval Saviani (1986), é necessário formular “uma teoria crítica, transformadora, [...] do ponto de vista dos interesses dos dominados, já que a classe dominante pretende apenas acionar mecanismos de adaptação que evitem a transformação”.


Por isso, a terceira tendência possível é a educação transformadora: uma educação que não reproduza a pirâmide social como é, mas que trabalhe para derrubá-la.


Radicalizar, sim!
Radicalizar, sim!

Para Saviani, a dificuldade em atingir esse estado na educação é resumida na seguinte questão:


até que ponto as mudanças no sentido de uma transformação da sociedade pela educação, não são, na verdade, meras medidas redentoras, destinadas a manter os grupos subordinados satisfeitos em sua posição?


Como saber se determinado auxílio ou ação afirmativa faz parte de um real compromisso com uma transformação social profunda?


A aparente dificuldade em responder a essa pergunta é um indicativo do quanto as nossas categorias de análise da realidade são colonizadas. Apáticas, acríticas, apolíticas.


Esse é o maior problema que precisamos enfrentar, se quisermos ver o povo brasileiro fluente em outras línguas: como a Educação Linguística pode parar de reproduzir e reforçar desigualdades, mesmo quando parece que não?


O início dessa resposta passa por construir categorias que "validem" o falante a partir de sua capacidade de expressar-se livremente, algo muito diferente de agir conforme o esperado dentro de um contexto pré-definido por agentes externos, a fim de agradar às expectativas do tal nativo.


Construir essas categorias, a partir de uma filosofia de ensino que vai Além da Língua, é o nosso objetivo aqui. Mais do que teoria e prática, temos Práxis: uma busca pela transformação da realidade.


Mais do que aprender, você vai questionar. Mais do que praticar, você vai agir sobre o mundo.


Em vez de gastar seu precioso tempo com treinamentos sobre ensino de gramática, de vocabulário ou de "pronúncia" (isto é, de sotaque do nativo hegemônico), eu sugiro que você se concentre em uma única habilidade: como ensinar qualquer brasileiro a falar sem medo e sem vergonha.


Desde a primeira aula. De um jeito que motiva porque faz sentido.


Se você tem esse objetivo há muito tempo e ainda não conseguiu alcançá-lo, o caminho está aqui.


Baseado em:


ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. Notas para uma investigação. Trad. Joaquim José de Moura Ramos. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1970.


FOGAÇA, Francisco Carlos; GIMENEZ, Telma Nunes. O ensino de línguas estrangeiras e a sociedade. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 7, n. 1, 2007, 161-182.


LUCKESI, Cipriano C. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez. 1994.


SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. São Paulo: Cortez Editora, 1986.


YOUNG, M. From Constructivism to Realism in the Sociology of the Curriculum. In: Review of Research in Education, 32, 2008, pp. 1-28.



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