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Novos dados sobre o (fracasso do) ensino de línguas no Brasil

  • Foto do escritor: marina.grilli.s
    marina.grilli.s
  • 1 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

A pesquisa "Demandas de Aprendizagem de Inglês no Brasil", publicada pelo Conselho Britânico nos idos de 2014, encontra até hoje ampla repercussão em qualquer comunicado ou diálogo acerca da baixíssima taxa de conhecimento de inglês do público brasileiro: 5% declaram nível "satisfatório" na língua, 1% declaram fluência.


British Council (2014)
5% do público geral e 10% dos jovens

A pesquisa apresenta também os motivos que impedem os participantes de aprender inglês: falta de tempo e de dinheiro ocupam as primeiras posições.


Bem... não é novidade que o trabalhador vive o constante desafio de equilibrar-se entre tempo e dinheiro. Quem trabalha muito e alcança uma renda confortável pode ter dinheiro para investir no inglês, mas não tem tempo.


Já quem dispõe de tempo livre raramente consegue custear a mensalidade de um bom curso ou de aulas particulares, é o que afirma a percepção popular.


Pearson (2025)
Obstáculos

Ou afirmava, em 2013.


Mais de dez anos depois, foi encomendada pela Pearson outra pesquisa no mesmo sentido. Novamente, os fatores tempo e dinheiro são apontados como principais entraves para a aprendizagem de inglês pelo público brasileiro.


A pergunta que deveríamos estar fazendo, em vez de normalizar o fracasso estrutural do ensino de línguas no Brasil, é:


Por que esse cenário não mudou ao longo de doze anos?


Por que esse cenário não mudou, mesmo com a ampliação exponencial do acesso a conteúdos em outras línguas por meio da internet (e, sobretudo, das redes sociais)?


Por que esse cenário não mudou com o advento de um sem-número de aplicativos de aprendizagem, dos mais famosos e gamificados aos mais exclusivos e pagos, em um momento histórico em que o brasileiro passa algo entre cinco e nove horas diárias mexendo no celular?


Por que esse cenário não mudou após a implementação da Base Nacional Comum Curricular a partir de 2017, a qual preconiza o reconhecimento da diversidade linguística em inglês, bem como o uso de diversas tecnologias e linguagens e o entendimento crítico do meio multicultural e multilíngue em que nos inserimos,


nem com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue, aprovadas em 2020, cujo texto contém o trecho abaixo?


Sabemos que há aspectos comuns entre o aprendizado da primeira língua e o da língua adicional: a noção de variedade linguística nos registros e estilos da fala, leitura e escrita; as diferenças dialetais sociais ou regionais; os processos que facilitam a ampliação do repertório linguístico; as unidades básicas que fundamentam o conhecimento da língua – elementos de fonologia, morfologia e sintaxe; as relações entre linguagem e letramento; e os processos sociais e culturais de interação que enriquecem a internalização e propiciam maior domínio da língua em diferentes situações de fala, leitura e escrita.

Não são perguntas fáceis de responder, haja vista a heterogeneidade dos brasileiros que têm algum conhecimento da língua inglesa. Heterogeneidade essa que, a propósito, não se pode atestar quão bem retratada foi nas pesquisas citadas: o Conselho Britânico cruzou dados do IBGE e entrevistas com 720 pessoas, e a Pearson entrevistou 7 mil informantes para compor seu relatório.


Acontece que o Brasil tem hoje 213 milhões de habitantes, o que torna ainda mais deasfiadora a missão de extrapolar os dados obtidos. O fato de sermos um país de dimensões continentais agrava também o desafio de encontrar uma solução para o problema da falta de conhecimento de inglês.


O acesso a redes sociais e aplicativos para aprender línguas, a oportunidade de estudar em escolas que disponham de "diversas tecnologias" para explorar o inglês, ou mesmo a presença de uma professora de inglês devidamente concursada em determinadas escolas públicas brasileiras não passam de uma ilusão para muitos. Mesmo assim, aqueles que têm essas oportunidades também não se tornam fluentes em sua esmagadora maioria, como deveria ser.


Reiterando, portanto, aa questões: por que o cenário não apresentou mudanças, ao menos não mudanças significativas, ao longo de doze anos? O que têm em comum todas as mudanças no cenário de aprendizagem e de uso da língua pelo público brasileiro desde então?



Antes de nos dedicarmos às respostas, é relevante observar que ambas as pesquisas detalham as implicações do conhecimento de inglês ou de sua falta para o mercado de trabalho, conforme as percepções dos brasileiros.


Não surpreende que esse seja o enfoque do Conselho Britânico e da Pearson, responsáveis pelas pesquisas publicadas em 2014 e em 2025, respectivamente.

Trata-se de empresas interessadas em mostrar ao público brasileiro que aprender outra língua acelera os ganhos financeiros.


Antes disso, surpreende que tal enfoque seja percebido por esses stakeholders como o melhor meio de convencer o brasileiro. O atual mercado de trabalho se caracteriza pela ampla precarização das massas trabalhadoras, originando o "novo proletariado de serviços" intelectuais (ANTUNES, 2020), e pela baixa mobilidade entre camadas sociais aliada à alta concentração de renda.


Quanto maior a dificuldade em que o indivíduo se encontra, maior sua disposição para buscar soluções rápidas para as dificuldades financeiras. Basta observar que, dentre os brasileiros que apostaram nas chamadas "bets" em junho de 2024, 52% têm renda familiar de até dois salários mínimos.


Embora aprender inglês não seja exatamente uma solução rápida, está claro que saber a língua é uma carta na manga no jogo da segurança financeira. Diversas pesquisas realizadas no Brasil em 2025 confirmam que o domínio do inglês está no Top 5 das habilidades técnicas mais valorizadas pelas empresas. Nas palavras de Cinthia Nespoli, CEO da Pearson no Brasil,


aprender inglês deixou de ser apenas uma vantagem e passou a ser uma estratégia para manter a relevância profissional em um mercado veloz e altamente impactado pela inteligência artificial.

Desse modo, as empresas que vendem soluções de inglês para o público brasileiro chamam atenção para os ganhos que a competência bilíngue é capaz de proporcionar. É isso que o brasileiro mais valoriza a respeito do inglês. Por quê?



DIEESE (2025)
Precisamos de esperança

Além da óbvia busca por segurança, em um país cujo salário mínimo é cerca de 1/5 do necessário para viver com dignidade enquanto 50% da população vive com menos de meio salário mínimo,


a razão para que a preocupação com o currículo seja o principal motivo para aprender inglês é a mesma razão para a falta de conhecimento do inglês:



O povo brasileiro ainda está buscando a solução no exterior.



Língua é prática social. Não é exatamente "viva", como querem muitos progressistas no campo da Linguística, mas é orgânica e moldada diariamente por meio de repetições. As categorias da língua emergem do uso, e não o contrário, por mais que esperneiem os normativos.


Vem daí a constatação lógica: sem praticar socialmente a língua, ela não passa de um conjunto vazio de palavras e de regras. Que não servem para nada. E se não têm serventia, não são apreendidas, compreendidas, aplicadas. Ninguém quer aprender algo inútil! O nosso cérebro não retém informações soltas e sem nexo.


É por isso que, quanto mais métodos milagrosos e materiais didáticos inovadores são importados dos EUA e Europa, mais o povo brasileiro continua na mesma: aqueles materiais e métodos giram em torno do tal "nativo". Mas não qualquer nativo, e sim, um nativo bem específico: o homem branco, de classe média, nascido e criado nos EUA ou em um daqueles três ou quatro países europeus.


Em outras palavras, o livro didático funciona como panfleto de viagem, destacando as maravilhas de um país distante do nosso. O nativo que recebe o visitante estrangeiro, sempre de braços abertos e tom de voz condescendente, é membro da classe média e falante da norma padrão.


Normalizou-se reprimir o português como recurso comunicativo (como se fosse esse o padrão, mesmo em outros países!). Normalizou-se fingir que a sala de aula está em outro país e ignorar solenemente a realidade que a cerca.


Normalizou-se afirmar religiosamente que "língua e cultura não se separam", para justificar o tempo de aula desperdiçado memorizando curiosidades irrelevantes de países que o aluno nunca visitou, e muitas vezes, nem a professora.


É assim que a língua vai se tornando algo distante da realidade, logo, difícil de aprender. A única razão plausível para abraçar a empreitada seria a promessa de ganhos financeiros.


Retomando um trecho anterior, a razão para que a preocupação com o currículo seja o principal motivo para aprender inglês é a mesma razão para a falta de conhecimento do inglês: conhecer apenas a imitação do nativo, e de sua "cultura" retratada como positiva e homogênea, como possibilidades de uso da língua. O povo brasileiro não considera a possibilidade de ampliar seus repertórios linguísticos para agir criticamente sobre a realidade: tanto porque não a conhece, como porque a questão financeira é prioridade absoluta.


Retomando outro trecho anterior, o fato de sermos um país de dimensões continentais agrava o desafio de encontrar uma solução única para a falta de conhecimento de inglês mas não é difícil encontrar pistas desse caminho nos próprios documentos oficiais da Educação no país.


Uma vida sem defeitos, né?

Se a BNCC fala em "variedade linguística" e "processos sociais e culturais de interação", como vamos criar espaço para tal variedade? Certamente não é seguindo religiosamente as diretrizes importadas e inculcando nas mentes brasileiras informações sobre os estados dos EUA ou sobre o quanto os ingleses são pontuais.



Se as Diretrizes Nacionais para a Educação Plurilíngue diferenciam bilinguismo equilibrado e bilinguismo dominante, bilinguismo de adição e de subtração, e reconhecem "a singularidade das experiências, dos tempos e dos estímulos de aprendizagem em cada etapa de desenvolvimento do percurso linguístico", como estimular tal singularidade em aula seja na escola, seja nos cursos livres, seja no ensino de crianças ou de adultos?


Certamente não é adotando métodos elaborados sem levar em conta a singularidade das experiências brasileiras.


Os dados recentes sobre a (falta de) conhecimento de inglês no Brasil provam, mais uma vez, que as instituições de ensino brasileiras precisam colocar em prática uma Educação Linguística que vai Além da Língua.



Obra citada:


ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2020.


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