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É por isso que o Brasil não é bilíngue

  • Foto do escritor: marina.grilli.s
    marina.grilli.s
  • 12 de mar. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 26 de jun. de 2025

Falar de educação no Brasil é sempre uma tarefa desafiadora - porque a precariedade histórica desse direito no nosso país, junto a ataques cada vez mais agressivos ao conhecimento desenvolvido pela humanidade por teorias da conspiração, fazem com que a palavra "educação" faça muita gente revirar os olhos.


Bilinguismo não é um termo menos polêmico. O que significa ser bilíngue no Brasil?


Ser bilíngue não é sobre "saber", e sim, sobre expressar-se
Ser bilíngue não é sobre "saber", e sim, sobre expressar-se

O povo brasileiro sempre foi sistematicamente destituído de seus direitos linguísticos. Já falamos mais disso aqui.


Lá em 1759, foi proibido o uso das línguas indígenas em todo o território nacional. E antes disso, foram mais de duzentos anos de um trabalho de colonização que as enfraqueceu e dissipou quase que sutilmente. Os frutos dessa ofensiva para calar o povo brasileiro são colhidos até hoje.


Igualmente violento foi o extermínio das línguas trazidas à força do continente africano. Esse processo refletiu um pensamento que Sousa Santos denomina pensamento abissal: tudo que estivesse do outro lado da linha da "modernidade" e da "civilização" não era sequer considerado humano.


E, assim, o brasileiro é considerado menos humano do que o europeu até hoje.


Já no século XX, uma nova tentativa de imposição do "português" como nossa única língua oficial durante a ditadura militar levou a prisões e desaparecimentos de membros de famílias de origem italiana, alemã, japonesa, e outras.


Hoje, completando esse histórico de negação ao conhecimento de quaisquer outras línguas que não o português, temos uma carga horária extremamente baixa dedicada às línguas no sistema escolar.


Os objetivos definidos nos documentos oficiais admitem explicitamente não ser possível aprender línguas de prestígio na escola - sobretudo na escola pública. Já as aulas particulares - realidade da esmagadora maioria dos aprendizes brasileiros de outras línguas - não são consideradas em nenhum tipo de diretriz nacional.



"Língua" é muito mais do que se pensa
"Língua" é muito mais do que se pensa

É por isso que não podemos falar em bilinguismo no Brasil sem considerar todo esse histórico. Como afirma Antonieta Megale (2019), qualquer proposta de ensino bilíngue deve contemplar a nossa realidade, que é plurilíngue e pluricultural - porque aqui coexistem inúmeras línguas, mas somente às margens da sociedade.





Para continuar o título do texto, é por isso que o Brasil não é bilíngue: porque temos, de um lado, inúmeras línguas invisibilizadas, e do outro lado, uma carga horária insignificante para as línguas nas escolas.


E, principalmente, porque mesmo quem ingressa em escolas de idiomas ou busca aulas particulares não tem acesso à livre expressão em outra língua.


O primeiro passo para construir uma nova realidade linguística para o povo brasileiro é a postura de agência docente diante da realidade brasileira que se coloca à sua frente. Que fechar os olhos para o fato de que o Brasil é um país plurilíngue, ou para o elitismo e a desigualdade social que por aqui imperam, não seja uma opção.


Que a prática de seguir os passos da colonização e continuar proibindo aprendizes de acessarem os recursos linguísticos, experienciais e afetivos de sua língua materna em sala de aula continue caindo rapidamente em desuso, como repressora, prejudicial e ultrapassada que é.


No webinar ao lado, aprofundei mais a questão das modalidades de educação bilíngue e ao modo como cada uma delas pode se adaptar às nossas necessidades.


Afinal, precisamos de uma efetiva educação bilíngue no Brasil, do Brasil e para o Brasil!

Baseado em:


FREIRE, José Ribamar Bessa. Changing Policies and Language Ideologies With Regard to Indigenous Languages in Brazil. In: CAVALCANTI, Marilda C.; MAHER, Terezinha M. (Orgs.). Multilingual Brazil. Language Resources, Identities and Ideologies in a Globalized World. New York/London: Routledge, 2018, pp. 27-39.


GRILLI, Marina. Passado, presente e futuro do ensino de línguas no Brasil: métodos e políticas. Linguagens – Revista de Letras, Artes e Comunicação, v. 12, n. 3, 2018, pp. 415-435.


GRILLI, Marina. Por uma educação linguística Translíngue e Decolonial: questões para o ensino de alemão. Revista Iniciação & Formação Docente, v. 7, n. 4, 2020e, pp. 904-930.


MEGALE, Antonieta. Bilinguismo e Educação Bilíngue In: MEGALE, Antonieta. Educação Bilíngue no Brasil. São Paulo : Fundação Santillana, 2019, pp. 15-27.



Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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