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Educação Bilíngue e seus desafios no Brasil

Atualizado: Mar 29

Falar de educação no Brasil é sempre uma tarefa desafiadora. A precariedade histórica desse direito no nosso país, junto a ataques cada vez mais agressivos ao conhecimento desenvolvido pela humanidade por teorias da conspiração, fazem com que a palavra "educação" revirar os olhos.


Bilinguismo não é um termo menos polêmico. O que significa ser bilíngue no Brasil?




O povo brasileiro sempre foi sistematicamente destituído de seus direitos linguísticos. Já falamos mais disso aqui.


A proibição explícita das línguas indígenas foi implementada em 1759, mas, antes disso, foram mais de duzentos anos de um trabalho de colonização que as enfraqueceu e dissipou quase que sutilmente.


Igualmente violento foi o extermínio das línguas trazidas à força de África, em um processo que refletiu aquilo que Sousa Santos denomina pensamento abissal: tudo que estivesse do outro lado da linha da "modernidade" e da "civilização" não era sequer considerado humano.


Já no século XX, uma nova tentativa de imposição do "português" como nossa única língua oficial durante a ditadura militar levou a prisões e desaparecimentos de membros de famílias de origem italiana, alemã, japonesa, e outras.


Hoje, completando esse histórico de negação ao conhecimento de quaisquer outras línguas que não o português, temos uma carga horária de línguas extremamente baixa, e objetivos que admitem explicitamente não ser possível aprender línguas de prestígio na escola - sobretudo na escola pública.


Não é possível falar em ensino bilíngue no Brasil sem considerar todo esse histórico. Conforme afirma Megale, propostas nesse sentido devem contemplar a nossa realidade, que é plurilíngue, pluricultural. Afinal, "a educação bilíngue no Brasil" não se resume a escolas privadas que oferecem aulas em português e inglês!


Por outro lado, é nas escolas privadas que se concentra a maior parte da oferta de ensino bilíngue no Brasil. O papel de quem exerce a docência nessas instituições, portanto, é "desconstruir categorias binárias e hierarquizadas", segundo Megale (2019).


Não são poucos os desafios a serem enfrentados por quem trabalha ou pretende trabalhar na área de ensino bilíngue no Brasil, certo? Assim como toda área do conhecimento em desenvolvimento, aqui também temos muito mais perguntas do que respostas.


De qualquer forma, o primeiro passo é a postura de agência docente diante da realidade brasileira que se coloca à sua frente. Que fechar os olhos para o fato de que o Brasil é um país plurilíngue, ou para o elitismo e a desigualdade social que por aqui imperam, não seja uma opção.


Que a prática de seguir os passos da colonização e continuar proibindo aprendizes de acessarem os recursos linguísticos, experienciais e afetivos de sua língua materna em sala de aula continue caindo rapidamente em desuso, como repressora, prejudicial e ultrapassada que é.


No webinar ao lado, aprofundei mais o a questão das modalidades de educação bilíngue e ao modo como cada uma delas pode se adaptar às nossas necessidades.


Afinal, precisamos de uma efetiva educação bilíngue no Brasil, do Brasil e para o Brasil!

Baseado em:


FREIRE, José Ribamar Bessa. Changing Policies and Language Ideologies With Regard to Indigenous Languages in Brazil. In: CAVALCANTI, Marilda C.; MAHER, Terezinha M. (Orgs.). Multilingual Brazil. Language Resources, Identities and Ideologies in a Globalized World. New York/London: Routledge, 2018, pp. 27-39.


GRILLI, Marina. Passado, presente e futuro do ensino de línguas no Brasil: métodos e políticas. Linguagens – Revista de Letras, Artes e Comunicação, v. 12, n. 3, 2018, pp. 415-435.


GRILLI, Marina. Por uma educação linguística Translíngue e Decolonial: questões para o ensino de alemão. Revista Iniciação & Formação Docente, v. 7, n. 4, 2020e, pp. 904-930.


MEGALE, Antonieta. Bilinguismo e Educação Bilíngue In: MEGALE, Antonieta. Educação Bilíngue no Brasil. São Paulo : Fundação Santillana, 2019, pp. 15-27.



Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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