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A polêmica da vez: linguagem neutra de gênero

  • Foto do escritor: marina.grilli.s
    marina.grilli.s
  • 30 de out. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 22 de mar.

Em época de polarização política exacerbada, qualquer coisa vira motivo pra discussão séria, egos inflamados, crises de ansiedade, e a infame frase "descansa, militante"... é ou não é?


Mesmo assim, vou me arriscar a mexer nesse vespeiro da linguagem neutra – que não foi inventada agora, não, como muita gente prefere acreditar.


Trabalhar com Educação Linguística, dentro do escopo da Linguística Aplicada, é reconhecer que língua e sociedade não se separam. E que toda questão social é pertinente ao âmbito da língua.


bandeira LGBT trans
Toda LGBTfobia é crime

Portanto, não existe a opção de ignorar os conflitos que vão surgindo na sociedade.


Não se quisermos educar linguisticamente para o futuro, abandonando o ensino de línguas rígido e ultrapassado, o que é justamente a premissa de tudo que eu te enssino por aqui.




Rita von Hunty nos lembra que, desde Freud e Lacan, é sabido que o sujeito se constitui através da linguagem: é a linguagem que molda as visões de mundo do sujeito e suas possibilidades de compreensão desse mundo.


Isso acontece porque o ser humano sente necessidade de nomear as coisas que percebe, de modo que praticamente não existe distinção entre perceber e nomear.


Além disso, conforme já discutimos aqui, a filósofa Judith Butler afirma que o sujeito não é determinado pelas regras que o constituem. Em vez disso, a construção de identidade é um processo regulado de repetição, ou melhor, de adaptação repetida a categorias predefinidas.


asiáticos fazendo cálculo
Categorias sociais são inventadas

Em outras palavras, nenhuma das categorias que conhecemos é natural: todas elas são invenções humanas!


Se essa afirmação tão radical parece razoável, mas somente enquanto estamos falando das Humanidades, vale a pena buscar informações sobre propostas de decolonização do conhecimento em outras áreas, como as etnociências e a etnomatemática.



Voltando à linguagem, o fato de a nossa língua brasileira utilizar o genérico masculino diz bastante sobre a forma como as mulheres são vistas na nossa sociedade – e, ao mesmo tempo, reforça constantemente essa visão.


Crescemos ouvindo frases como "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança", "o cão é o melhor amigo do homem". Aprendemos que homem é sinônimo de ser humano, embora as mulheres estejam em maior número na população brasileira – e isso porque ainda nem falamos dos outros gêneros que existem...


O fato de não percebermos esse apagamento das mulheres na linguagem indica justamente o quanto ele é sério, pois já nem nos incomoda. Porém, nas palavras da ativista LGBT Maira Reis, por que tudo tem que se voltar aos homens, e as mulheres que se encaixem dentro do padrão deles?


Recentemente, vêm ganhando visibilidade as reivindicações do reconhecimento de gêneros não-binários, isto é, de pessoas que não se identificam como mulheres nem como homens: pessoas agênero, bigênero, gênero fluido, entre outras.


pessoa não-binária com maquiagem

Há quem fique desconfortável com todas essas nomenclaturas, e tudo bem. O desconhecido sempre causa algum nível de desconforto. O que não está tudo bem é reproduzir discursos do tipo "no meu tempo não tinha essas coisas", pois esse pseudoargumento tem ao menos duas falhas:


- se antigamente não tinha essas coisas, hoje tem, pois as pessoas e as sociedades estão em constante mudança. Adapte-se!

- será que não era assim, ou será que essas pessoas não se sentiam à vontade para se expressar, graças a discursos preconceituosos como o seu?


É hora de abraçarmos novos paradigmas de compreensão do mundo e de expressão dessa compreensão, através da nossa língua.


Conforme reconhece o Manifesto Ile para uma comunicação radicalmente inclusiva, o próprio estranhamento que a palavra ile causa nos ouvidos das pessoas já é parte da mudança: nos força a ter que lidar, lembrar e reconhecer que nossos padrões não são estáticos.


Além desse manifesto, que marcou a proposta de empregar os pronomes neutros ile/dile, este guia completíssimo traz as propostas el/del, ilu/dilu, elu/delu, e outras dicas como usar a letra E para substituir vogais temáticas (em vez de X ou @).


É confuso? Acesse os links, informe-se, pratique aos poucos.


Procure não ser aquela pessoa preciosista que faz campanha contra a energia elétrica, só porque acha um charme a lamparina a gás!


Nós existimos!
Nós existimos!

E se, mesmo diante de todas essas informações, você acredita que um texto em linguagem neutra pareceria estranho e artificial,


está na hora de compreender que a mudança social que queremos passa, necessariamente, pela língua.

Inspirado em:


BUTLER, Judith. Gender trouble: Feminism and the subversion of identity. London: Routledge, 1990.


Este texto foi escrito em linguagem neutra de gênero. Doeu? ;)

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