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Resgatar a voz do povo brasileiro

  • Foto do escritor: marina.grilli.s
    marina.grilli.s
  • 31 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 5 de jan.

A gente sabe, sim, que falta alguma coisa.


Não falo de distribuição de renda, reforma agrária, saneamento básico ou professor na escola. Tudo isso falta, sim, e muito, nesse Brasil.


Mas sabe aquilo de que a gente sente falta, aquele sufocamento incômodo, que não chega até a boca pra virar palavra?


Só não sente quem já se conformou.


Escreve Carolina de Jesus:


Não tinha gordura. Puis a carne no fogo com uns tomates que eu catei lá na Fabrica Peixe. Puis o cará e a batata. E agua. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos.

Pois é. Ela conseguiu botar em palavras todo esse incômodo aí. Porque transcendeu a preocupação com a forma da palavra, e pensou só no conteúdo.


O negócio é que Carolina frequentou a escola durante apenas dois anos, lá na década de 1920 ou quase. Não tinha nem condição, certamente, de se preocupar com a ortografia correta do que devia dizer. E nem só porque tinha fome e pressa: porque não chegou a ela a ideia de que tem jeito errado de escrever, e jeito tão errado, mas tão errado, que a urgência do que é dito acaba ficando em segundo lugar.


Carolina Maria de Jesus (1914-1977)
Carolina Maria de Jesus (1914-1977)

Tá certo que Carolina não chega a ser o maior exemplo dessa injustiça, porque virou autora consagrada no Brasil e no mundo. Vencendo grandes obstáculos, claro, e críticas preconceituosas de todo tipo, mas que ela venceu, venceu. Aquele papo de que "a favela venceu" tão popularizado no funk dos tempos neoliberais, né? Só reforçando a dolorosa permanência de todos os outros lá na base da pirâmide.


Mas falando de funk, por que é que é som de marginal, aos olhos e ouvidos de quem se acha classe média? Não porque é feito pelos marginais, de fato, aqueles cuja existência e resistência escancara a tal base da pirâmide, mas pela forma de falar. Só pela forma, não pelo conteúdo.


Quem finge se chocar com o conteúdo ouve a mesma coisa cantada em inglês pelo Brian Johnson, e ainda tem a pachorra de dizer: "no meu tempo não tinha essas baixarias no carnaval... as marchinhas de antigamente é que eram música de verdade! Na minha abunda, na minha abunda!"


Então vamos entrar no inglês. Que brasileiro nunca estudou inglês?


Praticamente nenhum, porque lá em 1809 a língua foi tornada de ensino obrigatório por aqui pelo D. João VI, e mesmo tendo perdido espaço para o francês durante curto período, nunca perdeu de todo o prestígio. Em 2014 o Conselho Britânico realizou uma pesquisa, encomendada pelo governo brasileiro, que mostrou o seguinte: mesmo sendo parte da grade curricular das escolas do país quase que desde sempre, só 5% dos entrevistados "afirmam possuir algum conhecimento no idioma".


Além disso, 63% de quem já está fazendo curso se declara nível básico. Nível básico! Como é possível que tanta gente estude, seja só na escola pública, mesmo, seja com professores particulares caros e materiais importados... e continue no básico?


Tudo isso dentro de 5% da população! Infelizmente, não temos dados mais recentes, tampouco motivos pra acreditar que a situação tenha melhorado. Então, vamos considerar essa realidade aí da pesquisa. Como é possível?


A resposta está aí, na lata: é porque a forma vem antes do conteúdo. No Brasil, a forma da língua vem antes do conteúdo. A pessoa não se acha conhecedora da língua, não tem coragem de se afirmar parte do grupo de falantes. Não se sente pertencente.


A não ser que nem sequer tenha atingido o nível dessas preocupações. É o caso de Carolina.


Pra tornar o negócio mais complexo, vamos adicionar aí uma terceira língua. Numa pesquisa com estudantes de alemão do curso de Letras, decidi monitorar os níveis de inglês deles pra ver se realmente ficava mais fácil aprender alemão depois de saber inglês. No final, se destacaram três participantes: um não sabia nada de inglês e foi super bem no alemão - quer dizer, né, "não sabia nada" segundo ele mesmo, certamente o tal do "conhecimento básico" eterno. Enfim. O outro sabia tudo de inglês e foi mal no alemão.


E o terceiro? Era bom em inglês e em alemão. Caramba! Era isso que eu queria encontrar, certo? Errado. Esse terceiro só tinha respondido às questões de alemão que sabia pra valer, por isso não errou nenhuma. Porque deixou todas as outras sem responder.


É o medo de errar, que só tem quem já atingiu certo nível de consciência. Consciência de que a forma importa mais do que o conteúdo. Consciência da família branca de classe média baixa, da quebrada paulistana, que ouve a filha adolescente dizendo "mano" ou "bagulho" e berra aos quatro ventos: não foi pra isso que eu te coloquei em escola boa!


É daí que vem aquele sufocamento incômodo, que não chega até a boca pra virar palavra, e que só não sente quem já se conformou. Já se conformou que não sabe dizer ou escrever o que precisa, ou que, se sabe, não pode usar o recurso que tem. Pronto, engole de volta, bota pra dentro.


E segue repetindo que "o português é uma língua muito difícil", "o inglês é uma língua muito difícil", sei lá qual outra língua "é muito difícil", e "o espanhol parece fácil mas te engana, não vá pensando que você sabe espanhol, não". E segue repetindo que "se você não sabe nem português direito não tem pra que aprender outra língua". E segue se calando.


Taí um mecanismo bem-sucedido de colonização do povo brasileiro, viu? A língua.


Primeiro, as línguas indígenas foram amalgamadas no nheengatu. Depois, a partir de 1758, não se podia mais falar nheengatu! Só português. E em 1808 chegou aqui a corte real portuguesa. Ou seja, também não era mais pra falar português igual aos trabalhadores humildes que vieram trabalhar na colônia, mas igual aos nobres.


Quem se importou com o que o brasileiro tinha a dizer? Nada, porque lhes vestiram e enfiaram bíblias nas mãos. Foram matando as línguas que conhecia, apagando sutilmente os registros linguísticos, um por vez, ao longo da história, e construindo essa ideia muito bem consolidada de que o brasileiro não fala direito nem a própria língua, muito menos a dos outros.


A questão é: o que temos a perder se rompermos esses grilhões?


E se abraçarmos a língua como direito humano, daqueles reconhecidos pela ONU? Se entendermos que não é uma questão de propriedade, de posse, de quem tem mais poder, e sim, de prática social horizontal e livre?


E se falarmos como quisermos, para nos adequarmos ao ambiente e não para nos afastarmos dele? Porque o ambiente é este aqui, este Brasil, terra indígena, edificada por mãos negras escravizadas, e por mãos brancas e amarelas livres, e pela vontade de ter voz e de se fazer entender no Novo Mundo.


E se reconhecermos que a nossa língua é brasileira? Não só porque já se distanciou daquela de Portugal - mas porque foi constituída também por inúmeras etnias de negros e de ameríndios, as bases da pirâmide.


Resgatar a voz do povo brasileiro. É o que te convido a fazer em 2026. Como falante, como pessoa do Sul Global, como professora de uma língua de prestígio.


Também sou tudo isso. E sou aluna, eternamente aluna. Sou brasileira. Sou cria da quebrada. E sou a mãe que diz ao filho, muito menos apaixonado por línguas do que eu, enquanto ele faz a lição de inglês:


Estuda o bagulho direito aí, mano!

 
 
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