Feminicídio como produto do identitarismo
- marina.grilli.s

- há 4 dias
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2026 mal chegou e já arrasta consigo uma correnteza de sangue e lágrimas nos noticiários brasileiros: o feminicídio está mais em voga do que nunca.
Quer dizer, está mais em voga do que nunca como pauta de destaque na grande mídia, porque os números não são exatamente novidade: segundo o Mapa da Segurança Pública de 2025, houve cerca de 1.450 vítimas de feminicídio por ano em 2023 e 2024, e de acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero, já foram contabilizadas 718 vítimas no primeiro semestre de 2025.

Quatro mulheres assassinadas, quatro mulheres a menos, todos os dias. 70% delas, negras.
Esses dados constituem um retrato vívido da ascensão do conservadorismo no Brasil e no mundo, inflado em nosso país pelo pensamento bolsonarista que alavancou e que ainda alimenta a extrema-direita. A ideologia conservadora, com sua defesa da preservação dos ditos valores e tradições de uma sociedade, obviamente não se refere a valores e tradições das sociedades pré-coloniais que habitavam estas terras antes da invasão portuguesa e da colonização cristã. Muito pelo contrário, apoia-se nos ideais machistas de família e de religião para criar uma ilusão de que sempre foi assim.
Lélia Gonzalez, em seu Discurso na Constituinte [de 1988], resumiu: “a escolha de um sistema de representação, de classificação, valoração e de significação nos remete sempre a uma cultura dominante” (2020, p. 245). Foi a esse sistema que o ideal de feminismo nasceu para resistir, na Europa moderna.
Em meados do século XIX, a sociedade burguesa recém-constituída relegava as mulheres não mais apenas ao serviço doméstico e de cuidado, mas também lhes explorava a força de trabalho nas fábricas. Após a Segunda Guerra, as mulheres conquistaram alguns direitos, como o sufrágio, em diversos países.
Aprofundando suas reivindicações, a chamada segunda onda do feminismo teve como precursora a filósofa francesa Simone de Beauvoir com sua obra O segundo sexo, publicada em 1949, que jogava luz sobre a posição autodeclarada do homem como representante da humanidade. A mulher seria, portanto, uma espécie de subproduto do espécime original, naturalmente inferior a ele.
Tem-se aí a ideia de essência do que é a mulher. A célebre frase de Beauvoir “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” significa que a mulher é ensinada, ou melhor, doutrinada, a ocupar determinadas posições na sociedade. Surgia em O segundo sexo a semente do que viria a ser o conceito de gênero: ser homem ou ser mulher são construções sociais.
E nas palavras de Judith Butler (2024, p. 210), no recente Quem tem medo do gênero?, “a lacuna entre o corpo percebido ou vivido e as normas sociais dominantes nunca pode ser completamente eliminada, e é por isso que, mesmo quem abraça alegremente o sexo que lhe foi atribuído no nascimento, ainda tem de fazer um trabalho performativo para incorporar essa designação na vida social”.
Porque gênero, assim como tantas outras categorias sociais moldadas pela cultura, é performance. A língua é uma delas: desde a imposição, mais ou menos explícita, de adequar-se a um registro linguístico que pareça mais culto na própria língua materna, até a busca por parecer nativo em uma língua adicional de prestígio.
O entendimento dessas categorias sociais enquanto construções fluidas se opõe ao essencialismo – ou, para usar um termo mais polêmico, ao identitarismo. Identitarismo é um termo que vem sendo empregado de forma pejorativa para dar a entender que mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+, gordas, PcD e outras, definem a si mesmas unicamente, ou majoritariamente, por meio dessas características que lhes tornam parte de grupos minorizados. Acontece que essa definição não se sustenta na realidade.
Primeiro, porque o recorte interseccional é mais do que necessário para analisar as desigualdades na sociedade de classes capitalista: os membros dos grupos minorizados estão sujeitos a piores condições de trabalho, sofrendo assédios morais e sexuais, desdobrando-se em jornadas triplas, sendo submetidos a condições análogas à escravidão, e tendo menos oportunidades de acesso à educação e qualificação profissional que lhes possibilitariam melhor renda.
Desse modo, não há como separar a opressão sofrida pela classe trabalhadora e as demais opressões que atingem grupos específicos de trabalhadores.
Segundo, porque não são os membros de grupos minorizados quem, de alguma forma, causa os conflitos baseados no tal identitarismo. Douglas Barros (2024, p. 27) argumenta que, “muito pelo contrário, o identitarismo é a imposição de uma engenharia social, organizada a partir da logística e da gestão, que coloca as identidades na mira da administração como forma de policiamento”.
Em outras palavras, as pessoas minorizadas são mantidas na base da pirâmide de classes justamente por quem as essencializou nesses papéis subalternizados. É a lógica do identitarismo neoliberal que empurra a mulher preta para a função de faxineira, a travesti para a prostituição, a gorda e o afeminado para o posto de entretenimento e alívio cômico a quem olha de longe.
Logo, reduzir o indivíduo a determinadas categorias essencialistas é uma prática conservadora, que permite às classes dominantes legitimarem o apagamento das identidades minorizadas. Teóricos críticos da colonialidade apontam há tempos para essa essencialização dos indivíduos de etnias não-brancas por meio da prática de reduzi-los à dimensão do corpo.
Em tempos anteriores à imposição da mentalidade europeia por todo o mundo, coexistiam o corpo e a mente “como duas dimensões não separáveis do ser humano” (QUIJANO, 2005, p. 117). Com o avanço do pensamento iluminista, surgiu o conceito de uma mente que produz conhecimento localizada fora do corpo, isto é, fora do tempo-espaço (GROSFOGUEL, 2016, p. 29). O “penso, logo existo” de Descartes se aplica ao homem branco europeu, tão bem representado pela figura do Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci.
Às raças supostamente menos desenvolvidas do que a europeia, restaram o trabalho braçal e as mirabolantes atrocidades cometidas em nome do chamado racismo científico. Nesse sentido, bell hooks (2017, p. 183) também nota que “a pessoa mais poderosa tem o privilégio de negar o próprio corpo”, isto é, de perceber-se exclusivamente enquanto ser mental e racional.
É assim que, no Brasil, a união catastrófica entre a mentalidade colonial enraizada há séculos nas instituições e a recente ascensão da ideologia conservadora resulta na falácia de que indivíduos relegados à dimensão do corpo são apenas corpo. São apenas mulheres, apenas pessoas pretas, apenas bichas e sapatonas e travestis. Não são consideradas mentes pensantes.
Seguindo a mesma lógica, Butler (2020, p. 159) critica o feminismo radical que se alia ao conservadorismo transfóbico e reivindica a essência feminina como inerente às mulheres cis: “a definição dessas pessoas é uma forma de apagamento, e o direito delas de definir você é aparentemente mais importante que qualquer direito que você tenha de determinar quem é, como vive e que linguagem mais se aproxima de representar quem você é”.
E não é isso que acontece nas lutas de classes? Quem espera que a mulher ou o negro “se coloque em seu lugar” é a classe dominante. Foi assim que a sociedade de classes brotou do solo do machismo e do racismo, e se sustenta até hoje sobre preconceitos diversos contra corpos que divergem do modelo vitruviano.
É assim que homens seguem matando mulheres quando elas não correspondem a ideais conservadores à la “bela, recatada e do lar”, para as brancas, ou apenas submissas, caladas e servis, para as não-brancas.
Isso, sim, é identitarismo. Não se trata de uma escolha dos grupos minorizados, mas, sim, de uma tática de segregação e reforço das desigualdades sociais. O que nos cabe, enquanto membros progressistas de grupos minorizados, é tomar consciência da intersecção de opressões que nos atingem – e abraçar nossas identidades minorizadas como estratégia de resistência a toda opressão.
E que nossas dissidências não sejam essência, e sim, estratégia. Que não sejam destino, e sim, decisão.
Nas palavras da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) durante a manifestação Mulheres Vivas deste domingo (7/12), na Avenida Paulista,
nenhuma de nós, nenhum de nós, gostaríamos de estar nesta avenida hoje. Nós queríamos estar em nossas casas, com nossos filhos, com nossas esposas, com nossos maridos, com nossa família. Mas o machismo, a agenda de ódio, o sucateamento das políticas de proteção à mulher no governo Tarcísio [Freitas – Republicanos/SP], nos obrigam a tomar a rua para dizer: PAREM DE NOS MATAR!
Inspirado em:
BARROS, Douglas. O que é identitarismo? 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2024.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: fatos e mitos, vol. 1. Tradução de Sérgio Milliet. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016 (1949).
BUTLER, Judith. Quem tem medo do gênero? Tradução de Heci Regina Candiani. 1ª ed. São Paulo: Boitempo, 2024.
GONZALEZ, Lélia. Discurso na Constituinte. In: GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020 [1983], pp. 244-262.
GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. Revista Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, 2016, pp. 25-49. Versão modificada do artigo The structure of knowledge in westernized universities: epistemic racism/sexism and the four genocides/epistemicides of the long 16th century. Human Architecture: Journal of the Sociology of Self-Knowledge, v. 9, n. 1, 2013, pp. 73-90.
hooks, bell. Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2017.
QUIJANO, Aníbal Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005, pp. 107-130.



